Cuidados com a alma – Quando a fé resgata uma vida

Pregação no Grupo de Oração Nossa Senhora Rainha, em Araçatuba-SP – Arquivo pessoal.

Muito se pensa sobre a construção ética e moral de uma pessoa. O que a faz praticar certos atos e tomar algumas decisões? Como se cria sua consciência sobre as coisas do mundo ao redor? Como o poder religioso influencia a mudança de vida e a criação de um conceito novo sobre as formas de estar em paz e no caminho certo? Admito que, ao escolher um tema tão complicado para esta reportagem, pensei se realmente deveria levar isso adiante, justamente por princípios a serem debatidos.

Embora uma parcela da população não entenda a espiritualidade como ponto considerável na tomada de decisões e mudanças de comportamentos, outra fatia farta crê fielmente em Deus ou outra divindade superior. De acordo com uma pesquisa encomendada pela BBC, 92% das pessoas no mundo possuem esse senso de espiritualidade e crença de força superior, vista como dominante no plano espiritual, que permeia ideias, conceitos e a própria vida humana. A ideia da espiritualidade ser vista como uma “muleta para ignorantes”, enxergar um caminho promissor e iluminado é tido como a melhor saída de malefícios causados pela vivência terrestre, como cometer crimes e pecados.

É válido ressaltar o significado de tal termo aplicado nos ideais materiais do ser humano. De acordo com o psicólogo Dr. Cristiano Nabuco, para o site Viva Bem, espiritualidade envolve a crença em uma força poderosa que controla o universo e o destino do homem. Além disso, exercer a espiritualidade no cotidiano diz respeito às maneiras pelas quais as pessoas cumprem o que consideram ser o propósito maior de sua vida. Para alguns, a religiosidade é como ponte para o encontro do homem com a presença divina.

Mário Sérgio Cortella, filósofo, escritor e professor renomado na comunidade acadêmica brasileira, fala sobre o conceito como a oportunidade de transcendência humana da vida indecente, além de ressaltar essa mesma importância para o crescimento individual, independente de crenças ou religiões. Veja o vídeo.

Uma história que começa cedo…

Léo, aos 24 anos, com o então padre Jornas, na Comunidade Canção Nova – Arquivo pessoal.

Leonardo Messias, de 44 anos, é ex-usuário de drogas e atua como missionário católico, transmite sua história e espiritualidade em igrejas, residências e retiros. Léo começou a vida no vício com 12 anos. Ouvir essa primeira informação faz um coração apertar e a imaginação desenhar os caminhos que o levaram para esse mundo, mas a firmeza de uma nova história contada pela boca de uma pessoa renovada e transformada traz um contexto delicado para o relato: suas razões.

“Eu sofria bullying dos meus amigos por ser muito pequeno. Isso me deixava muito chateado, porque minha mãe era professora e dava aula pra eles, que a consideravam uma amiga”, diz.

Ainda sobre a presença materna, diz: “Ela trabalhava de manhã, tarde e noite e nós não nos víamos muito, apenas nos fins de semana e acabávamos conversando pouco. Isso me fez pensar que ela não se importava comigo”. Os motivos já estavam feitos: problemas de sociabilidade e a visão materna construída como quem faz “pouco caso” do filho.

Inicialmente, era mula do tráfico (pessoa que realiza o transporte de entorpecentes entre fornecedores e vendedores de drogas) e aos 13/14 anos, já era viciado em cocaína. Entre mais de dez anos de história fora de um contexto de crescimento saudável, foram inúmeras convulsões, amigos falecidos e duas overdoses que quase o levaram à morte, sem contar os tiroteios e outras situações de extremo perigo. No meio disso, Léo sentia momentos de consciência própria. Ele sabia que deveria fazer isso. Pelas suas próprias palavras, “o vício é mais forte que o desejo”.

E assim foi até seus 24 anos.

Se você está na chuva, tem que se molhar…

Uma das memórias mais vívidas de Léo é a mãe, que orava por seu filho, assim como o resto da sua família, para que ele se visse livre do vício. “Toda noite, não importava a hora em que eu chegava, via minha mãe ajoelhada em frente à imagem de Nossa Senhora Aparecida, do lado de uma vela acesa. Tempos depois, quando me converti, ela me disse que orava para essa santa porque ela representa a mãe de todos nós e queria que me cuidasse com seus olhos. A vela acesa era Jesus, para iluminar o meu caminho”. Neste momento da entrevista, a riqueza de detalhes mostrou os primeiros sinais de espiritualidade como ponto de importância.

Aos 24 anos, ele decidiu que não faria mais aquilo. Sem drogas, vícios, perigos. A difícil missão lhe bateu na porta e o vício o fez querer ceder muitas vezes, então dedicou um tempo especial para contar como sentiu o Espírito Santo, que de acordo com as crenças cristãs, é capaz de mudar uma pessoa completamente. Este é o símbolo principal da espiritualidade catolicista, incendiável para a alma do homem crente em Deus.

Um dia, sentado no banco da praça São Joaquim, Léo segurava um pino de cocaína nas mãos. Estava sozinho. Esperou por um amigo para conseguirem mais drogas ou apenas testarem em seus limites. Ninguém apareceu. Ele já era sinal de perigo para os esquemas de tráfico e aquilo seria uma exposição que ninguém queria.

Cheirou o próprio entorpecente e se levantou para ir embora, mas algo chamou a atenção no caminho. A reunião de um grupo de oração dentro da ainda pequena igreja de Santa Rita, mais precisamente a voz conhecida de um amigo que até então estava desaparecido. Drogado, entrou no templo, enxergou-o e quis ir embora. Algo o impediu. O primeiro contato direto com Deus. Uma voz, que lhe trouxe a lembrança da frase que sempre disse para viver sua vida aos extremos: Se tá na chuva, tem que se molhar.

“Léo, você experimentou de tudo, fez de tudo, por quê não experimenta o que tenho para oferecer?”

Aos prantos, recebeu a oração e o Espírito Santo. Sentiu-se elevado. Voltou para casa, deitou-se. No dia seguinte, a sensação de desejo pela libertação que seu amigo teve ainda o atraiu, como um chamado definitivo de Deus. A sensação de desistência da vida estava mudando de forma e sua mente passou a buscar um novo rumo. Não em um estalar de dedos, mas com força de vontade e dedicação vinda do poder de um Deus maior.

Finais felizes

Sessão de autógrafos em Santópolis do Aguapeí – Arquivo Pessoal.

Leonardo acredita até hoje que foi graças ao pedido da família e, principalmente, da mãe, que Deus intercedeu e o apresentou um novo propósito. Foi para a Canção Nova (comunidade católica brasileira fundada pelo Monsenhor Jonas Abib no ano de 1978, seguindo as linhas da Renovação Carismática Católica) estudar teologia e os ideais da Bíblia, tendo como mentor o próprio Monsenhor Jonas. Ali viu sua espiritualidade florescer e lhe trazer novos frutos.

Uma das coisas que mais frisou foi o valor pessoal que sentiu ter dentro do âmbito da igreja. Antes considerado um ser humano de poucas qualidades e que não tinha jeito, Léo Messias, hoje aos 44 anos, reafirma a presença de Deus como ponto principal para sua própria superação. Atualmente trabalha exclusivamente em nome do Evangelho, ministrando encontros em retiros, grupos de jovens, de oração, etc. e transmitindo seu aprendizado por meio da pregação.

Em 2018, o missionário escreveu o livro Ressuscita a tua Casa, voltado para o avivamento da fé das famílias. Durante vinte anos de trabalho, o conteúdo da obra aborda exclusivamente a construção familiar para uma boa estrutura, pois muitos dos problemas, além das drogas, são provenientes de uma participação familiar fragilizada. Já são três mil cópias vendidas e muitos testemunhos de busca por uma melhor vida por meio das palavras de Léo.

Superando problemas como depressão e crise do pânico em decorrência do uso de drogas químicas, Leonardo Messias é um exemplo para as comunidades por onde passa. Nelas, dá seu testemunho de um espírito reconstruído com muita oração, determinação, esforço e construção espiritual por meio de uma relação fiel e gratificante com seu único e onipotente salvador, Deus.

Veja mais

Uma carta sobre a espiritualidade como método de vida

Apesar das diferenças ilustrativas e das práticas espirituais, as religiões se conectam pela crença em uma força(s) superior(es) que rege(m) o mundo. Esta presença, onipotente e base orientadora para conceitos morais e éticos dos seres humanos, é o ápice do fim de uma vida terrestre e mundana, como um recomeço ao lado dessas entidades. As religiões mais incorporadas no Brasil atualmente são o Budismo, Cristianismo (entre Igreja Ortodoxa, Anglicana, Católica, Protestante, Testemunhas de Jeová, Mórmons e Espiritismo), Islamismo, Judaísmo, Hinduísmo e Candomblé. Veja uma breve perspectiva sobre algumas delas.

Budismo

De acordo com Takeuchi Yoshinori, no livro “A Espiritualidade Budista” (editora Perspectiva, 2006), “No budismo, a ‘espiritualidade’ não é uma realidade meramente interior ou uma simples fuga da existência comum. Ela não pressupõe qualquer dualismo entre o domínio espiritual e o domínio dos sentidos, ou entre uma dimensão profana e o mundo sagrado. Numa palavra, a liberdade alcançada na prática budista é o conhecimento da realidade, ou antes, é a realidade em si, a existência liberta das ilusões e das paixões que nos prendem a um mundo de ignorância e sofrimento”.

Catolicismo

O sacerdote carmelita Frei Patrício Sciadini, em orientação pelo grupo católico Canção Nova, afirma queO caminho da verdadeira espiritualidade é um processo de libertação interior, no qual tudo está debaixo do poder da nossa liberdade e nada mais poderá nos impedir de sermos livres no nosso agir. Na espiritualidade, então, percebemos que é necessário superar as ideologias mágicas que não realizam nada em nós

Espiritismo

Allan Kardec, considerado o pai da doutrina espírita, diz no livro “Livro dos Espíritos” que “O espiritualismo é o oposto do materialismo; qualquer um que creia ter em si algo além da matéria é espiritualista; mas não segue daí que necessariamente acredite na existência dos Espíritos ou em suas comunicações com o mundo visível. Em lugar das palavras espiritual e espiritualismo, empregamos, para designar esta última crença, espírita e espiritismo.”

Judaísmo

Henry Sobel, rabino e presidente do rabinato da Congregação Israelita Paulista, afirma: “Não existe, no judaísmo, uma forma predominante de espiritualidade, porque não existe um tipo predominante de judeu. Alguns buscam a espiritualidade no mundo interior, outros no mundo exterior. Algumas pessoas deixam Deus entrar através do intelecto, outras através das emoções. Mas todas as formas de espiritualidade judaica incentivam os judeus a encontrar o equilíbrio entre seu relacionamento com Deus e seu relacionamento com a família e a comunidade”.

Islamismo

Por Abul Ala Maududi, no site IslamReligion.com, de acordo com o Islã, “Deus designou a alma humana com Seu califa (vice gerente) nesse mundo. Ele a investiu com certa autoridade e deu a ela certas responsabilidades e obrigações e, para que fossem cumpridas, conferiu à alma a melhor e mais adequada estrutura física. O corpo foi criado com o único objetivo de permitir à alma usá-lo no exercício de sua autoridade e no cumprimento de seus deveres e responsabilidades. O corpo não é uma prisão para a alma, mas sua oficina ou fábrica; e se a alma tiver que crescer e desenvolver, será somente através dessa oficina. Consequentemente, esse mundo não é um lugar de punição no qual a alma humana infelizmente se encontra, mas um campo para o qual Deus a enviou para trabalhar e cumprir seu dever em relação a Ele.”

Induísmo

“O Hinduísmo é uma religião politeísta, que acredita em guias espirituais. Os principais deuses são, em primeiro lugar a grande trindade: Brahma (criador do universo), Shiva (o transformador do universo) e Vishnu (o mantenedor do universo). Além destes são bastante importantes Ganesha (deus elefante da sabedoria e da sorte), Kali (senhora da destruição) e Laksmi (deusa da arte e criatividade), entre tantos outros. Acredita que a libertação final da alma determina o fim do ciclo de morte e renascimento e esse é o objetivo mais elevado que se possa ter. Nesta fase, a alma se torna uma com Brahma, deixando de ser uma individualidade, acredita também que todos são divinos e cada ser é em essência um com Brahma e toda a realidade fora dele é ilusão”.

Candomblé

Jonathan Félix, pesquisador sobre Inteligência Espiritual pela PUC Minas, diz que “O Candomblé promove uma espiritualidade do cuidado, de reencantamento com a natureza e todos os seus elementos.  No livro Iniciação do Candomblé, do autor Zeca Ligeiro, ele apresenta os onze orixás como forças inteligentes da natureza.  E no livro Candomblé e Umbanda: Caminhos da devoção brasileira, de Vagner Silva, o autor complementa apresentando os orixás como entidades espirituais regentes.  Para os autores¬, “na visão das religiões de matriz africana, os orixás são forças inteligentes da natureza que regem o cosmo, vincula-se às pessoas, como arquétipos da personalidade humana”, dando característica a cada filho ou filha. A espiritualidade do candomblé nos retira de uma espiritualidade individualista, cultivando o respeito pela pessoa humana e a reverencia pela natureza”.

Por Maria Eduarda Ramos, estudante do 4º semestre de Jornalismo – UniToledo

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