“Não existe nada mais revolucionário do que o amor entre duas mulheres”

Além de toda uma luta diária travada contra o patriarcado, mulheres lésbicas encontram uma questão ainda maior, a de existir.

A pauta sobre visibilidade lésbica é um ponto chave para a comunidade LGBT+ e é com esse assunto que iniciei entrevistas com duas escritoras que estão se destacando nos cenários da literatura e das redes sociais.

Nalü Romano Lister – Reprodução Instagram/ Gira Lister

Nalü Romano Lister, 22 anos, artista e escritora carioca, vive atualmente em Nova York; é autora do livro “VOCÊ (e todas as outras coisas que me machucam)”, com versão também em inglês: “YOU (andalltheotherstuffhuting me too)”. Sua conta no Instagram alcança mais de 18 mil seguidores e mais de 39 mil no Twitter. Casada com a artista Gira Lister, Nalü  participa de vários movimentos políticos nos Estados Unidos, muitos deles envolvendo o atual governo brasileiro. Em julho deste ano, o casal oficializou a união no religioso e fizeram uma live pelo Instagram de Nalü durante a cerimônia.

“Em inglês, eu chamo o amor de “she”. Não tem impacto, tem essência”, diz Nalü.

Diedra Roiz – reprodução Twitter

Diedra Roiz, 48 anos, carioca, escritora e diretora teatral, festeja o lançamento de seu 20° livro: “Na distância em que eu te encontre”. Sua conta no Instagram já alcança mais de 8 mil seguidores. Ela utiliza as mídias sociais para divulgar suas obras e promover a discussão da representatividade LGBT+.

O que as duas escritoras têm em comum? São mulheres e ambas têm o público feminino como alvo.

Em agosto, no Mês da Visibilidade Lésbica, o Google modificou o algoritmo para que a palavra ‘lésbica’ deixasse de ser associada à pornografia nas buscas que realiza na internet, resultado de uma campanha de ativistas nas mídias sociais. “Foi um momento de vitória muito gostoso e esperançoso”, destaca Nalü, que é uma das ativistas do movimento “Global Gay Girl Gang”. “Acho que o maior impacto da conquista é o resultado da união e força de mulheres. A gente consegue”, festeja a carioca.

A GGGG é um movimento de origem californiana que incentiva casais lésbicos a compartilharem seus relacionamentos com hashtags específicas, uma delas a #gaygirlgang. A página no Instagram @globalgaygirlgang conta com mais de 63 mil seguidores e é administrada por mulheres lésbicas.

Construindo caminhos

A busca por uma voz dentro e fora da comunidade LGBT+ tem levantado grandes debates nas mídias sociais, visto que é o maior espaço para discussões sociais utilizado hoje em dia. Nalü discorre que quanto à visibilidade lésbica a luta consiste em “aprender a não se curvar, se fortificar e, por fim, solidificar em resistência. Ocupar espaços, do simbólico ao físico”. E Diedra defende:

“Ser respeitada sem ter que se justificar ou se esconder, sem medo de sofrer violências verbais ou físicas pelo simples fato de amar outra mulher.”

Projetos, movimentos e campanhas com cunho lésbico são formas de luta pela visibilidade lésbica. Nalü não deixa de dizer: “não existe nada mais revolucionário que o amor entre duas mulheres”.

Casamento de Nalü e Gira – Reprodução Instagram/ Rodolfo Sanches

É com esse objetivo de ocupar espaços que a escritora de literatura lésbica Diedra Roiz defende que “a literatura lésbica expressa realidades de mulheres lésbicas (trans ou cis), buscando deixar a invisibilidade num mundo que ainda classifica um casal de mulheres como sendo “duas mulheres sozinhas”, fato que não acontece com um homem, pois independentemente de sua orientação sexual, é sempre visto como sujeito e protagonista”.

O que mulheres héteros, bissexuais, lésbicas (cis, trans) têm em comum é a necessidade urgente por espaço na sociedade. Diedra ainda aponta que, seja qual for a orientação sexual, as mulheres ainda não são vistas socialmente como sujeito e protagonista.

A busca para garantir esse direito incomoda de muitas formas.

Ser fazer parte da comunidade LGBT+ nunca foi fácil para homens, ser mulher e fazer parte dela é mais difícil ainda. De acordo com a matéria publicada pelo O Globo em uma entrevista com as criadoras da revista Brejeiras – revista voltada a conteúdos no cenário lésbico, muitas mulheres lésbicas se sentem à sombra dentro da comunidade LGBT+ e o cenário é um pouco diferente quando se trata do espaço protagonizado pelo homem gay.

Brejeiras

Visando ocupar espaços físicos e de fala, as criadoras do Brejeiras – Camila Marins, Cristiane Furtado, Laila Maria, Luísa Tapajós e Roberta Cassiano – decidiram tomar a iniciativa da publicação trimestral de uma revista totalmente voltada para o público e o cenário lésbico atual.  A representatividade é um passo importante na busca pela visibilidade da mulher lésbica cotidianamente.

Nalü e Gira – Reprodução Instagram/Rodolfo Sanches

Nalü observa essa diferença e reflete: “Eu acredito que não tem âmbito nenhum onde a opressão entre homem e mulher seja na mesma medida. Não se deve esquecer que desde os primórdios endeusamos o falo e demonizamos a vagina”. De fato, o degrau da escada sempre foi mais alto para as mulheres que decidiram caminhar seus próprios rumos. 

Roiz encontrou seu lugar em 2007 quando teve o primeiro contato com a literatura lésbica e desde então escrever tem sido seu espaço de protagonista.

“Encontrei meu lugar de fala, descobri que precisava encontrar minhas próprias palavras, fui construindo um caminho para me tornar uma lésbica com orgulho de ser visível”.

Todo mundo sabe que a vida não é um mar de rosas e viver em uma sociedade machista, padronizada e homofóbica não facilita nada no cultivo dessas flores. No dia 5 de setembro desse ano, durante a Bienal do Livro no Rio de Janeiro, o prefeito Marcelo Crivella mandou que as publicações de um livro em quadrinhos fossem recolhidas por conter cenas homoafetivas. Segundo a postagem em sua conta oficial no Twitter, o livro teria conteúdo impróprio.

Se o incentivo à leitura já é escasso, literatura com conteúdo LGBT+ é ainda mais difícil de ser alcançada.  “Nunca encontrei abertura de editoras que não fossem voltadas exclusivamente para literatura LGBT+ ou outras formas de diversidade. Geralmente são editoras pequenas, com pequenas tiragens, para um público específico. Meus livros têm boa aceitação e vendem bem dentro deste “micromercado””, destaca a escritora.

Acontece que por mais que pautas lésbicas tenham seus espaços nas mídias sociais, raramente são ouvidas fora desse nicho e muitas vezes são questionadas sobre sua sexualidade. Uma expressão usada é a famosa “carteirinha de lésbica” que essa plataforma, principalmente no Twitter, vem carregando nas linhas de debates.

Sabe aquele tweet que diz “Ah, se você já se relacionou com homem em algum momento da sua vida, então você não é lésbica, é bissexual”? Recentemente, a conta do Twitter da Nalü foi vasculhada por uma internauta que acabou questionando-a sobre seu relacionamento passado. Em tom de ironia, Nalü tweetou: “Atenção, galera, não sou mais lésbica perdi minha carteirinha pq a menina que resgatou meus tuites antigos disse que sou desonesta pois já namorei um homem” (17:39- 05 out 19).

É nesse meio social tóxico e questionador que as mulheres lésbicas se veem muitas vezes, caladas e intimidadas. Segundo Diedra “muitas vezes, para uma mulher lésbica cis é necessário lutar para ter seu espaço, suas demandas e sua voz respeitados; para mulheres lésbicas trans, é mais difícil ainda”.

Com o passar do tempo a mulher conquista mais direitos, sobe mais degraus, aumenta mais a voz e chacoalha o sistema. O incômodo provocado por essa revolução feminina é em todos os cantos. E o amor sempre fala mais alto.

Romano ainda finaliza a entrevista dizendo que, quanto a amar uma mulher sendo uma mulher é “como diz minha grande amiga poeta, Thalita Coelho: É amar a céu aberto.”

Foto: Mariane Zauzza

Por Letícia Gonçalves, aluna do 4º semestre de Jornalismo – UniToledo

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