Trufas recheadas de sonhos – “Nunca imaginei chegar aonde cheguei”

Rafael Sales produz e vende as próprias trufas de chocolate para custear intercâmbio de futebol nos EUA.

“Oi, licença, tudo bem? Desculpe estar atrapalhando, mas é que faço e vendo algumas trufas, pois passei em uma seletiva de futebol, e a empresa faz intercâmbio com os atletas para fora do país. Com isso é necessário que eu tenha que arcar com vários custos, então faço e vendo essas trufas para tentar alcançar esse objetivo para minha vida. Poderiam estar ajudando comprando alguma trufa hoje? Passo cartão também, se for o caso”.

Assim Rafael Ferreira Sales, de 21 anos, se apresenta quando sai para vender seus sonhos trufados.

Rafael produz e comercializa suas trufas. Ele aceita pagamento em cartão. Foto: Arquivo pessoal.

Morador da cidade de Birigui (SP), o jovem produz e vende as suas próprias trufas para arcar com os custos do intercâmbio de futebol para os Estados Unidos. De tantas idas e vindas, realmente decidiu investir pela última vez tudo aquilo que pudesse para a realização do seu maior sonho, ser jogador de futebol. Um sonho que sempre existiu desde os seus cinco anos de idade, mesmo quando mal sabia chutar uma bola e não tinha sequer um par de chuteiras.

Foi com essa mesma idade que entrou na escolinha de futebol Grêmio Toselar, no bairro onde morava, que tinha um campo bastante precário para receber a prática de qualquer esporte pelas condições em que se encontrava. Mas isso nunca foi motivo para Rafael e seus amigos desistirem, muito menos para Luiz Carlos, professor da escolinha, o maior incentivador dos meninos.

Com o tempo e a prática Rafael foi aperfeiçoando o seu futebol e adquirindo cada vez mais habilidades dentro de campo. As fases foram passando e, quando notou, já era alguns dos destaques da escolinha.

“Todos queriam estar perto, jogar no meu time, mas sempre fui simples e ensinado a não ser melhor que ninguém, então aquela “fama” era irrelevante, afinal, ainda éramos inocentes”, lembra Rafael.

Algum tempo depois, Rafael ganhou de seu pai o primeiro par de chuteiras; ele se enchia de orgulho com tantos elogios que recebia dos treinadores sobre o filho e tinha costume de chamá-lo de “potinho de ouro”, “dono das minhas promissórias”. Rafael sorri ao recordar as alegrias que trouxe para o pai.

Pedras no gramado

Foi aos doze anos de idade que Rafael teve que trocar o período escolar e consequentemente mudar os horários dos treinos, levando-o a não ser mais da mesma turma do que de costume. Ele mesmo conta que foi assustador entrar no novo time, havia caras mais velhos que já disputavam campeonatos e fisicamente eram mais fortes. E ele? “Não pesava nem trinta quilos molhados”, brinca Rafael. Entretanto, não foi justificativa para que deixasse de brilhar e mais uma vez o destaque foi iminente.

Com tanto talento, logo começou a disputar campeonatos, conhecer outras equipes e adquirir cada vez mais técnicas e preparo, o que levaria gradativamente mais perto da realização do grande sonho. No ano em que completou quatorze anos, jogou em três grandes clubes do Estado de São Paulo, porém em nenhum desses obteve o final esperado.

Nesse mesmo ano, a família de Rafael passava por uma crise financeira e quase perderam a casa onde moravam. Os problemas custaram a saúde psicológica e física de seus pais, a inquietação e a insônia viraram acompanhantes fiéis do casal. Rafael, não contente com a situação na qual seus pais se encontravam, decidiu abandonar o seu sonho de ser jogador de futebol e passou a se concentrar nos estudos. Entrou para o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), formou-se em Mecânico de Usinagem, Eletricista de Manutenção e consequentemente entrou para uma faculdade Federal, cursando Mecatrônica Industrial. O futebol já não fazia mais parte de sua vida.

Amizade do bem!

O sonho de virar jogador profissional havia se apagado em Rafael.

Foi quando um amigo de serviço, após ficar sabendo da história de vida dele, insistia diariamente para que ele voltasse aos gramados. Rafael, que na época tinha 19 anos, conta que já havia perdido todas as esperanças, pois essa idade para o futebol já era considerada ultrapassada. Assim, a persistência e cobrança de seu amigo não chamavam sua atenção.

Com a esperança abalada, mas os pensamentos em tudo o que seu colega dizia, Rafael foi à procura de testes de futebol para fazer. Refletiu se a profissão que havia escolhido era o que realmente queria e, então, no mesmo ano fez um teste para o Coritiba Football Club – Paraná F.C – e uma peneira para o Criciúma. Não atingiu bons resultados em ambos. “Nunca tive um empresário, sou de família simples e infelizmente o futebol gira muito em torno de dinheiro”, comenta Rafael.

Foi então que um amigo seu de Curitiba (PR) apresentou uma agência de intercâmbio esportivo.

“Eu dizia pra mim mesmo que essa era a minha última tentativa”, contou Rafael.

Foi para Londrina (PR), realizou a seletiva e obteve os resultados desejados, mas existiam custos altos para essa concretização. Rafael voltou para casa convicto daquilo que mais queria. Cursando o penúltimo semestre da faculdade, optou por trancar e investir tudo nas trufas, em que sua mãe o ensinou, assim teria uma renda extra para ajudar com os custos do intercâmbio.

No começo, as vendas eram feitas em horário de almoço, nas portas das fábricas, nesse período vendia cerca de 50 a 70 trufas por semanas, até expandir o seu negócio nas entradas das faculdades. Nesse intervalo de tempo, conheceu um empresário que se interessou em sua história a partir de vídeos postados por Rafael nas mídias sociais e o indicou para um clube no Rio Grande do Sul.

Mais uma vez, Rafael largou tudo, saiu do seu emprego na qual já tinha três anos de experiência, depositou de novo todas as expectativas em si e no novo time. Morou por um tempo lá, mas logo notou que muita das coisas que tinham prometido, não estavam cumprindo. Passou necessidades e novamente acreditou que o futebol não era para ele.

Estabelecendo um foco

Voltou para sua cidade e retornou a vender as trufas, decidindo focar somente na sua ida para os Estados Unidos e sua renda seria somente com o dinheiro das trufas. A produção aumentou bastante, Rafael passou a vender de 250 a 300 trufas por semana, faz tudo sozinho e ainda conta que as “idas às fábricas em horário de almoço se tornaram impossíveis devido ao grande número de pedidos diários”.

Atualmente, Rafael possui um mentor e amigos que lhe orientam na preparação da ida aos EUA.

“Nunca imaginei chegar aonde cheguei, mas com tudo isso eu aprendi que posso chegar aonde desejar chegar, basta determinação, postura e foco. Decidi não ser somente mais um número na sociedade e resolvi fazer a diferença na vida das pessoas, quero mostrar que a vida é muito mais do que apenas um clico comum”.

Rafael, hoje

O jovem não desistiu do seu sonho e hoje seu objetivo de estudar fora do país e ganhar uma bolsa na universidade jogando futebol não está longe. Ainda complementa que a chance de profissionalizar no futebol pode proporcionar uma qualidade de vida melhor para si e sua família.

Por Bruna dos Santos Barcelar, aluna do 4º semestre de Jornalismo – Unitoledo.

Imagens: Arquivo pessoal

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