Autoestima é a melhor arma contra gordofóbicos

Posts e blogs são algumas das ferramentas utilizadas por mulheres que fizeram do sofrimento um prazer, gerando empatia com outras vidas tocadas pela gordofobia.

A palavra correta que resume a vida de Patrícia Machado, de 44 anos, e Renata Juliotti, de 32 anos, é superação. As duas mulheres a têm como símbolo da vitória contra obstáculos de aceitação em um mundo onde a aparência física é alvo de discriminação.

De acordo com o site TUASAÚDE, gordofobia é um preconceito em relação a pessoas gordas gerado pelo culto a um padrão de beleza imposto pela sociedade, que enquadra o corpo ideal como alto, magro, com curvas e sem celulite.

De acordo com a psicóloga Franciele do Vale Geralde, o tema central gira em torno da desvalorização.

“O maior receio deles é ter que lidar com a falta de aprovação da sociedade. Eles se sentem muito pressionados a apenas mudar sua composição corporal e sempre relatam que as pessoas deixam de perguntar sobre o seu bem-estar emocional”.

Segunda ela, o número de pessoas que pedem ajuda é muito grande. “Mas quando digo isso, não digo que diretamente as pessoas me procuram e já agendam a sua primeira consulta. Elas passaram a chegar com dúvidas, questionamentos e sofrimentos e de uma forma já mais desinibida começam a perceber que precisam de ajuda”, explica Franciele.

Ela ressalta que há alguns anos a realidade era outra. “Me procuravam dizendo que terceiros aconselharam procurar um psicólogo. E isso demonstra que com o passar do tempo as pessoas passaram a se perceber um pouco mais, tendo consciência emocional, além, é claro, de desmistificar a ideia do tratamento psicológico”.

“Gorda baleia”

Patrícia, aos 8 anos.

A infância é considerada a fase de grande desenvolvimento físico, marcado pelo gradual crescimento da altura e do peso, especialmente nos primeiros três anos de vida. É quando a criança se liberta e começa a descobrir um novo mundo. Foi nesse início de jornada que Patrícia e Renata sofreram os piores ataques contra seu corpo e sua aparência física.

Patrícia relata que sofreu muito bullying na infância.

“Desde que entrei na escola, aos sete anos até os dez anos. Os meus colegas de sala colocavam apelidos como “gorda baleia” e “orca”, além disso, quem era meu amigo acabava sendo vítima também”.

Ela ainda conta que passou fases de muita solidão. “Acabava me conectando apenas com outros colegas que também sofriam bullying e a “turma dos excluídos”, era muito visível essa divisão. Os professores identificavam com facilidade que havia um grupo de crianças sofrendo intimidação, mas na época não havia essa consciência”.

Renata, aos 8 meses, com a mãe.

Renata também alegou que sempre ouvia piadinhas do tipo “gorda baleia” e “saco de areia”, mas não a incomodavam tanto, pois acreditava que isso seria apenas uma fase. Mas, infelizmente se prolongou para a adolescência.

Nova etapa, outras batalhas

Marcada por uma fase de transição entre a infância e idade adulta, a adolescência caracteriza-se por alterações nos níveis físico, mental e social, representando para o indivíduo um processo de distanciamento nas formas de comportamento e privilégios típicos da infância, adquirindo, assim, novas competências.

Patrícia defende que o combate ao bullying tem que ser intenso em todos os ambientes.

“O bullying foi impactante para a minha formação e deixou marcas profundas na minha autoestima. Não é questão de “mimimi”, como dizem. É violento e cruel. Não podemos permitir que as crianças cresçam aprendendo esses atos”.

Renata conta que na adolescência percebia ainda mais essas opressões, principalmente até se descobrir como pessoa.

“Me sentia um peixe fora d’água, como se eu não pertencesse aos grupos de pessoas ao meu redor, até mesmo no meio familiar, pois sempre fui criticada pelo meu corpo e isso realmente me magoava”.

Assumindo as rédeas

Patrícia curtindo uma corrida na esteira.

Moradoras de Araçatuba, no interior paulista, as duas começaram a espalhar iniciativas contra a gordofobia nas mídias sociais com postagens e criação de blog sobre o tema.

“Comecei a fazer algumas postagens usando #positivebody após conhecer os perfis da Thaís Carla, que é uma bailarina gorda. Aliás, o movimento #positivebody usa com naturalidade a palavra gordo e gorda. Ser gordo não significa ser feio ou bonito, é uma característica como magro, alto ou baixo”.

Segundo Patrícia, é necessário tirar o estigma negativo da palavra gordo e isso só é possível se a sociedade se apropriar de um novo significado.

Ela ressalta que sua militância digital está no começo, mas percebe que as postagens sobre aceitação e amor ao corpo tem muita repercussão positiva e por isso vai continuar. “Acaba sendo mais uma inspiração para mim e, melhor ainda, alcançando outras pessoas com ajuda.”

O blog Diário XG, criado por Renata, mostra como o dia a dia de uma mulher obesa é complexo e cheio de preconceitos. A autora conta que o propósito ao criar o blog foi para ajudar no processo de autoaceitação. Confira seu relato:

“Esse movimento dentro de mim começou depois de passar por um período depressivo por conta do assédio e bullying que enfrentei no emprego em uma multinacional. Como eu era jornalista de moda, senti a crueldade da área por meio de uma líder que me humilhava, assediava e maltratava todos os dias em razão do meu corpo. Chegou a um ponto que fiquei muito doente e a terapeuta sugeriu que eu devesse escolher entre o trabalho ou minha saúde. Daí larguei tudo e voltei para Araçatuba. Foi então que comecei a entender o movimento body positive e trabalhar minha autoestima e aceitação. No começo deste ano, finalmente, desenvolvi o blog a partir de alguns textos que já estava escrevendo. Ele é como um diário público, onde eu conto minhas experiências pessoais como pessoa gorda, como mulher e como praticante do body positive. Sempre me embasando em informações de profissionais e fontes oficiais para dar seriedade aos meus argumentos e vivências. A iniciativa do blog me rendeu um convite para participar de grupo de pesquisa na Unesp de Bauru e irei escrever artigos para uma organização mundial de mulheres jornalistas em 2020”.

Aceitação e inspirações

Renata, aos 31 anos, quando participou do espetáculo “Chicago”.

Renata conta que hoje se aceita e aceita seu corpo como é.

“Acredito que isso mudou porque entendi que eu precisava mudar meu conteúdo muito mais que minha aparência. Agora me olho no espelho e vejo a mulher que quero ser, apenas com pontos a serem aperfeiçoados. Meu corpo gordo não me impede de ser a melhor de mim, pelo contrário, a partir do momento que eu o aceitei, me senti mais mulher, mais desejada e mais feliz”.

Ela ainda fala que suas maiores inspirações são as mulheres guerreiras e confiantes; cita a atriz, produtora e rapper americana Queen Latifah, a atriz Viola Davis e a cantora Lady Gaga, ativista contra abusos sexuais e todo tipo de preconceito.

Patrícia, aos 44 anos, na academia que frequenta atualmente.

Patrícia diz que sempre dá ênfase na frase “um corpo perfeito é aquele que tem uma pessoa feliz dentro”, pois todas as pessoas são mais que apenas um corpo.

“Durante toda a vida nosso corpo se transforma, ele cresce, engorda, envelhece. Um dia nem vai mais existir, mas creio que de alguma maneira vamos continuar. Seja em outro plano ou por meio das pessoas que inspiramos e das marcas positivas que deixamos. Por isso, temos que perceber o corpo como ele é, ou seja, um veículo, um instrumento para a vida. Algo em transformação”.

Texto por Carla de Andrade, estudante do 4º semestre de Jornalismo.

Fotos: arquivo pessoal das entrevistadas.

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