Dona Neide, da Casa de Belém

Daquelas pessoas que renovam a esperança, Dona Neide é uma joia de Araçatuba que faz um importante trabalho: ajudar o próximo.

“’Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte não temerei mal algum, pois Tu estás comigo’. E eu ando, atravesso os meus vales da morte, Deus é minha força e essa força me faz querer amar o próximo”. Com seus 71 anos, dona Neide é uma mulher de fé, alegre e simpática, que usa dos seus dons para levar alimento para o corpo e para alma daqueles mais necessitados.

Fui pela primeira vez em sua casa, pra fazer a entrevista, e estava tudo aberto; no fundo eu ouvi uma risada, daquelas contagiantes. Fiquei receosa de entrar. Toquei a companhia e fui recebida na maior alegria “Vanessa, essa é a jornalista que eu te falei que vinha aqui”. Me lembro de corrigi-la: “jornalista ainda não sou, mas se Deus quiser vou ser”. Ela me guiou casa a dentro e foi me apresentando a cada uma das pessoas que estavam lá. Ela me cedeu um lugar na ponta de uma grande mesa de madeira, que fica logo na entrada da casa. Uma senhora com riso solto, baixa estatura e com uma flor de tecido enfeitando o cabelo começou a me contar um pouco da sua história.

Dona Neide estampa sorrisos e cores, mas sabe que a vida é sofrida e põe a mão na massa pra mudar a realidade de quem precisa de ajuda.

A rotina começa às 5h30, de joelhos no chão em oração, já que é Guardiã Nacional do Ministério de Cura e Libertação. Às 6h ela e a filha, Vanessa, começam a arrumar o cômodo da casa mais usado e mais cheio de energia. Às 7h as voluntárias começam a chegar e cada uma já sabe o que deve fazer.

O começo de tudo

Tudo começou quando Arisneide – Neide, como prefere ser chamada – e outros adolescentes do grupo de jovens da pequena comunidade Sagrada Família, da Paróquia São Sebastião, resolveram realizar um “gesto concreto” no Natal de pessoas que trabalhavam/moravam no lixão.

“Faz 24 anos desde que nós tomamos a iniciativa de fazer um gesto de amor. Nós começamos um trabalho espiritual e Deus tocou nosso coração”.

Era tudo muito novo e dona Neide ainda não tinha as parcerias que tem hoje; o que eles tinham era a vontade de mudar a vida das pessoas. Combinaram uma galinhada e compraram refrigerantes pra fazer daquele Natal inesquecível.

“Nós fomos em uma caminhonete, abrimos a caçamba e forramos uma toalha na parte de trás. Quando paramos pra olhar, ficamos impactados. Lá nós vimos pessoas no último degrau da vida, pessoas que moravam em barracos de papelão, não era nem casa, fia.”

“Eu vi aqueles homens e mulheres tudo sujo, cheio de urubu em volta. Retirando e separando reciclagem. E o pior, o que eles achavam eles comiam, do jeito que tava! Quando chegamos em casa desabamos em chorar, nós não comemos direito por uma semana. Foi horrível ver aquele pessoal daquele jeito e o pior filha, ERAM SERES HUMANOS! Foi ali que eu achei meu chamado e por isso minha missão se tronou grande”.

Prontas para quem tem fome.

Além de levar alimento para aquelas famílias, dona Neide e os integrantes do grupo de jovens trabalharam a parte espiritual de cada um. Rezaram Pai-Nosso, cantaram e interagiram com o pessoal. A partir daí, Neide decidiu trabalhar firme com quem mais precisava e foram cinco anos intensos dentro do lixão, ora levando comida, ora tratando dos doentes, recuperando essas pessoas com empatia e atenção. “Tinha mulheres com câncer que nós levamos ao hospital, pessoas bêbadas que nós encaminhamos para ajuda, pessoas com AIDS, de tudo… e nós tentamos ajudar ao máximo”. 

Durante a conversa, em cada momento era possível perceber que Neide tem uma vocação para ajudar o próximo e em tantos anos de serviço prestado ela relembra um caso que a marcou.

“Menina, deixa eu falar pra você. Tinha um rapaz…Que eu nunca vou esquecer. A gente tava dando as comidas no lixão e do lado tinha um mato tipo um matagal e olhei assim, tinha uma fogueira e eu vi uma panelinha preta lá e duas pessoas em volta. E eu fui muito ousada, nunca tive medo de nada, ai eu falei assim: ‘Com licença, eu posso atravessar?’. Tinha uma cerca de arame antes, eu atravessei e vi que era um rapaz e uma mulher. Quando eu cheguei perto e olhei pra ele, o cabelo  tava cheio de piolho andando. Ele tinha acabado de sair da cadeia, coitado, e tava jogado porque ele tinha medo de todo mundo. E eu disse: ‘Não tenhas medo’. E ele: ‘da onde você é?’. Ele ficou grosso e bravo, sabe? Eu disse: ‘Fica tranquilo, meu amor, eu sou da igreja, nós viemos aqui pra te amar, pra te abraçar, pra falar de Deus pra você’. Ele estava como se estivesse armado em defesa, sabe? E ele foi desarmando com a nossa palavra de amor. Nós oferecemos comida pra ele e o olho dele se encheu de lágrimas”.

Depois do trabalho no lixão, Arisneide começou a visitar idosos necessitados e casas de família. Foram mais cinco anos de trabalho até tomar a decisão de abrir um espaço na sua própria casa para sediar um lugar de acolhimento. Desde então o projeto vem ganhando mais espaço e visibilidade na cidade.

Mão na massa

Voluntários que fazem o trabalho alcançar ainda mais pessoas.

Sentada naquela mesa, que devia ser de uns dez lugares, percebi que o movimento não parava e nem ela. Mesmo sentada ao meu lado direito para a entrevista ela não parava de checar se estava tudo certo e caminhando bem. Por dia, saem em média 70 marmitas. O cardápio varia de semana para semana e de dia pra dia, mas o que não pode faltar é carinho, dedicação e amor. Há pouco mais de 10 anos, Arisneide tem dedicado sua vida a ajudar o próximo, independentemente de sua origem e seu passado.

Pra ajudar em seu projeto, Neide conta com a ajuda de 15 mulheres que preparam as refeições e embalam as marmitas diariamente. Mas quando começou não era assim. “Não tinha nada, nada, nada. Minha casinha era de laje e só tinha uma mesinha velha, um fogão, um caldeirão e um tanquinho. Nós passamos por provas de lágrimas serem derramadas pra chegar nesse momento aqui”.

Como já comentado, a casa da dona Neide fica sempre aberta, sempre pronta pra acolher quem precisa. O movimento começa mesmo a partir das 11h. O primeiro que apareceu lá foi o Valdemir Barbosa de Matos, mas todos chamam ele de “Semy”. Não perdi a oportunidade e, como futura jornalista, pedi para tirar uma foto. Assim que cheguei perto ele começou a falar, sem que eu pedisse.

“Ô, dona, fique sabendo que eu sou muito agradecido a todos e principalmente à dona Neide, que me ajuda. É daqui que eu tiro meu alimento. Eu nem merceia isso, eu sou um bêbado, meu problema é a bebida, eu já tentei parar, mas eu não consigo”.

A essa altura, eu já havia chorado umas três vezes, e com esse depoimento entrou mais um choro pra conta. Os casos que aparecem lá são os mais diversos, pessoas dependentes, que gastam o dinheiro com droga e acaba sem ter o que comer; pessoas em situação de miséria, que o dinheiro não dá nem pra uma refeição por dia; e pessoas em situação de rua.

Quantas pessoas não têm o que comer e onde morar?

Apesar do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) não realizar pesquisas e censos para avaliar pessoas em situação de rua, o site do Senado Federal apresenta um levantamento elaborado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

Em Araçatuba existe também o programa Centro POP (Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua), que oferece atendimento especializado e atendimentos tanto individuais como coletivos, oficinas e atividades de convívio e socialização. O registro disponibilizado revela que existem 101 pessoas que moram ou tem família na cidade em situação de rua. Só no ano de 2018 foram atendidos, ao todo, 1.784 pessoas. Há uma grande rotatividade de indivíduos em situação de rua, pois muitos vivem em trânsito – como “trecheiros”. Os dados foram disponibilizados pela Assessoria de Imprensa do município.

Casa de Belém

Lá, sempre tem alguém pra receber e oferecer algo. “Aqui não para mesmo não. É meia-noite, 5h da tarde, 9h da manhã”. E por isso foi que o padre, da comunidade na qual ela começou o trabalho, nomeou carinhosamente a casa de dona Neide de “Casa de Belém”. “Ele falou que foi onde Jesus entrou e ceou com Martha e Maria e como aqui todo mundo passa come e bebe, ele deu esse nome”.

Os amigos da Dona Neide.

Aposentada como chefe de cozinha de uma escola particular da cidade, ela carrega sua pastinha com os cadastros das pessoas mais recorrentes na casa. São mais de 200 famílias só em um bairro e, ao todo, 450 famílias espalhadas na cidade que recebem atendimento especial. É de causar admiração o carinho e a paixão que Neide tem com o próximo. Ela literalmente faz o bem sem olhar a quem.

“Eu tenho os meus cadastros, mas se alguém aparecer na minha porta sem ter cadastro, eu ajudo, não me importo. Tudo que você pensar eu faço pra ajudar o ser humano. Eu doo sapato, roupa, fraldão pros idosos, fralda pras crianças. Eu gosto de conhecer quem está lá precisando, esse é o trabalho que eu mais gosto”.

Fiquei sabendo do trabalho dela ao final de uma missa na igreja Imaculado Coração de Maria, onde o padre Fernando apresentou ela pra comunidade e carinhosamente a chamou de madre Teresa de Calcutá de Araçatuba. “Ela cuida dos nossos pobres”. Ao longo da entrevista eu pude confirmar essa frase. É ela que cuida de pessoas que são excluídas e esquecidas pelos demais. É ela que planta e semeia o amor, independentemente de quem for.

Essa é uma postura que ajuda a amenizar vários problemas da sociedade.

Texto e fotos por Verônica Martins, estudante do 4º semestre de Jornalismo.

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