Nunca é tarde para despertar a juventude

Histórias inspiradoras de duas senhoras que redescobriram a alegria de viver na terceira idade, criando um novo ciclo de juventude na vida.

Era uma sexta-feira à noite quando, em meio a tantas pessoas mais velhas do que eu, me senti um pouco deslocada ali. Tinha decidido acompanhar minha avó no “Baile Para Todas as Idades” – que sempre achei que se chamasse “Baile da Terceira Idade”. No hall de entrada do Pérola Clube, na cidade de Birigui, onde o evento acontece toda sexta-feira, iniciei minhas conversas com homens e mulheres dali, em grande maioria na casa dos 60 anos.

 Lá, o termo “jovem” se ampliou em minha concepção. “Vó, as pessoas mais jovens costumam frequentar o baile?”, perguntei. Ela me respondeu que sim e que, inclusive, tinha um rapaz bem jovem ali no dia. Olhei para onde ela apontava e me deparei com um homem que deveria ter por volta dos 50 anos. Para ela, uma senhora de 64 anos, aquele homem era um rapaz e, para mim, ele já seria um senhor. Concepções diferentes idealizadas por pessoas com idades diferentes.

À minha volta, mulheres em vestidos brilhantes e floridos, com cabelos e unhas pintadas, batom na boca e salto alto, comentavam entre si sobre algum conhecido que não teria comparecido no baile da noite em questão. Muitas das pessoas ali frequentavam o lugar há pelo menos uma década, então, é claro que notariam a falta de alguém.

“Eu me sinto jovem”, disse dona Tereza, uma das amigas da minha avó, enquanto batíamos um papo. Pude comprovar a afirmação cerca de vinte minutos depois. Lá dentro, no salão de festas do Pérola, a música da banda “Intuição do Forró” cativou os frequentadores, que se levantaram e dançaram aos pares. Eles rodopiavam ao som da sanfona, cada par com seu ritmo e estilo de dança, transmitindo mais vitalidade do que costumo ver por aí.

Querendo extrair mais informações sobre aquele evento semanal que movimentava Birigui – e pessoas de outras cidades, como fiquei sabendo mais tarde -, procurei algum funcionário para conversar. Nisso, encontrei Vera trabalhando no balcão do Pérola. Ela me explicou como o baile funcionava, que era um projeto da Prefeitura da cidade e outras informações. Notei que as pessoas que paravam ali para comprar bebidas me encaravam bastante e quando a indaguei sobre isso, Vera me respondeu: “É porque você é nova aqui. É a primeira vez que eles te veem, então eles sabem”.

Voltando à mesa que minha avó tinha reservado para nós – eu, ela, o namorado dela e um casal de amigos -, anotei tudo que coletei em uma agenda e fiquei observando os casais rodopiando pelo salão.

Afinal, o que é jovem e o que é velho? Essa questão pairava na minha cabeça quando fui embora naquela noite e assim ficou mesmo algum tempo depois. Então, garimpei duas histórias de mulheres que puderam me garantir, cada qual da sua maneira, que a juventude está no espírito e não no físico.

Renascimento: aprendendo a viver na terceira idade

Fran, a jovem senhora Francisca no auge dos 64 anos.

Francisca Gomes, minha avó, nasceu na pequena cidade de Vista Serrana, na Paraíba, e se mudou para Birigui, no estado de São Paulo, já adulta e casada. Aprendeu novos costumes, adquiriu um novo sotaque e se adaptou. Passou por um casamento difícil, enquanto batalhava para cuidar do filho doente. Sofreu com a morte desse filho e, posteriormente, com o falecimento de seu segundo marido.

Até que, por si só, dedicou-se a cuidar de uma pessoa importante: ela mesma.

Fran, como é conhecida por todos, começou a frequentar o baile, passou a comprar roupas bonitas, pintou os cabelos e se tornou a avó que estou acostumada a ver. “Lissa, olha minha blusa nova” – ela abre o guarda-roupas e me mostra – em meio a dezenas de blusas – uma cheia de rendas que comprou naquela semana. Luxo ao qual ela se dá pelo menos duas vezes ao mês. Vaidosa, minha avó tem uma coleção de perfumes, sapatos, roupas e tudo mais que ela quer comprar pelo simples fato de ser o dinheiro do trabalho de diarista e esforço dela e, bem, porque ela merece.

Após muito tempo se dedicando a criar os filhos e tendo dificuldades no casamento, hoje ela cuida apenas de si – e mima um pouco os netos -, mas afirma, com seu sotaque nordestino e o tom de voz alegre: “Eu sou feliz”, e isso parece bastar.

Reencontro: namorados novamente após 50 anos

Leda celebra o reencontro e exalta seu espírito jovem.

Leda Karkoski é uma professora aposentada de aparência bem jovial. “Eu sou jovem, porque eu tenho um espírito jovem”, ela comentou comigo. Contou que gostava de papear com os amigos, de sair e, principalmente, rir. Disse que se divertia bastante e que esse era o segredo de sua jovialidade. Bom, ela também me contou uma história bem interessante durante nossa conversa, a qual compartilharei aqui.

Há 48 anos, Leda terminou um namoro de três anos com um rapaz em sua cidade natal, Aquidauana. Ela se casou, teve filhos e se mudou para várias cidades durante as últimas décadas até chegar em Birigui com a família. Ele também formou uma família e assim parecia acabar a história dos dois. Os anos se passaram. Um telefonema reaproximou os ex-namorados (que há anos não mantinham contato) após certa resistência por parte de Leda que, viúva há cerca de 5 anos, não queria engatar um novo romance. Hoje, eles namoram e residem em Birigui juntos.

Envelhecer no século XXI

Depois de conversar com homens e mulheres sobre juventude, percebi como muitos deles eram bastante ativos na sociedade e, durante um estágio, descobri que havia um evento que abordava exatamente esse tema. O “Longevidade Expo + Fórum” reúne empresas em São Paulo para apresentar tendências e soluções de integração do público sênior – tão exigente quanto o público mais jovem – no mercado dos negócios. Na edição desse ano, trouxe atores tão bem conhecidos por todos, como a atriz Laura Cardoso, para palestrarem e falarem sobre um envelhecer ativo.

Envelhecer ativamente é possível?

A fisioterapeuta e gerontóloga Janaína Martins tem um perfil no Instagram chamado FisioGeriatria que conta com mais de 5 mil inscritos; nele há muito humor, aborda assuntos relacionados ao envelhecimento e à sua profissão. Janaína nos aconselha a cuidar do corpo e da mente, independentemente da idade que tivermos para, assim, envelhecermos ativamente. Especificamente para os mais velhos, Janaína acrescenta: “Devemos quebrar o tabu de achar que idosos são frágeis”, e recomendou que praticassem o exercício que tivessem vontade, respeitando seus limites corporais e com acompanhamento médico, é claro.

Janaína Martins compartilha nas mídias sociais seus conhecimentos para envelhecer com saúde.

Sabemos que isso é um fato inevitável, mas todos estamos destinados a envelhecer. É a ordem natural da vida e muitos têm medo disso. Porém, foi em uma visita a um baile que eu aprendi que o conceito do que é velho e do que é novo é polissêmico e se molda à perspectiva de cada um, e que você pode ser jovem mesmo tendo 50 ou 70 anos. Como Leda disse, “jovialidade vem de dentro”.

Texto e fotos por Larissa Gomes, estudante do 4º semestre de Jornalismo.

Imagem em destaque: https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/subprefeituras/cidade_tiradentes/noticias/?p=99202

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