Além do palco italiano

Conheça detalhes da cena teatral de Araçatuba.

“O teatro grego principiou com Téspis, no século VI a.C.”. Com certeza esta é uma das primeiras frases ditas em curso de teatro sobre a história dessa arte milenar.

Téspis de Ática foi o primeiro grego a representar um personagem, o que faz ele ser o primeiro ator da História do Teatro. Ao invés de fazer apenas o coro à Dionísio (como era comum nos rituais ao deus), ele fingiu ser Dionísio, vestiu o manto e dialogou com o coro, criando uma cena bem diferente do que era comum na Ágora. 

Depois de Téspis vieram muitos, e os gêneros Tragédia e Comédia surgiram no fundo de tabernas ao entornarem louvores ao deus do vinho. Eurípedes, Ésquilo e Sófocles compõem uma trindade tragediógrafos reconhecida e lida até os dias de hoje, eles foram os mais acirrados competidores das Grandes Dionísias, festival de teatro antigo que premiava tragédias e comédias. Aristófanes é considerado o maior comediógrafo, ele é autor de Lisístrata (ou A Greve do Sexo) publicado em 411 a.C.

Até agora foi-se menos de um século sobre a História do Teatro que, mesmo sofrendo hiatos, é enorme e cheia de estéticas distintas. O diretor, ator e pesquisador russo Constantin Stanislavski é considerado uma quebra de padrão, possuindo um método específico de atuação que mexe com características psicológicas de atores e personagens, tornando a atuação mais real e dolorosa. Seus três livros foram laçados no século XX e moldam a didática de cursos conceituados de teatro e televisão.  

Stanislavki revolucionou o teatro na Rússia Soviética e ultrapassou as barreiras políticas através da arte. Ele também construiu o Teatro de Arte de Moscou, que segue o modelo de palco italiano. Este molde de palco existe desde o século XVII, inspirado no movimento renascentista, ele coloca o ator como o centro do prédio e a plateia é localizada apenas em um lado, no sentido frontal da cena, popularizando o palco italiano.

Foto da parte interna do Teatro de Arte de Moscou, construído em 1900 por Stanislavki. Foto retirada do site Moscovery.

Dentro do palco: festivais e mostras cênicas

O Troféu Odette Costa foi elaborado por Margarete Martins, artista plástica, e sua primeira realização foi em 1997, tendo o mês de maio definido como data para entrega. Além disso, o nome foi escolhido como uma homenagem à colunista e jornalista Odete Costa Bodstein, fundadora da Academia Araçatubense de Letras

No ano de 2019 as categorias do prêmio foram: danças; artes populares; música; teatro; artes visuais; meio de comunicação; áudio visual; cultura urbana; literatura; espaço difusor; e um prêmio especial que homenageou o Festara (Festival de Teatro de Araçatuba)

Caique Teruel, ex-presidente e Giulia Sorpilli, atual presidente da Associata na noite de premiação recebendo juntos o prêmio especial do Festival de Teatro de Araçatuba. Foto: assessoria da Prefeitura de Araçatuba.

As primeiras edições do Festara aconteceram entre 1996 e 1998, quando a Federação de Teatro Amador da Região de Araçatuba (FETARA) era responsável por sua organização e possuíam um caráter competitivo. Depois de 1998 não foi possível dar sequência ao festival por motivos financeiros e políticos, obrigando assim o encerramento do evento amador. 

Alexandre Melinsky, ator e produtor, foi um dos responsáveis pela idealização do Festara e fundou a Associata (Associação dos Artistas da Região de Araçatuba) em 2007. Foi graças a associação que o festival voltou aos palcos, reformulado e querendo mostrar ao público o que era produzido na região, os prêmios não são o foco das novas edições. 

“Com a criação da Associata a gente revitaliza o Festara em 2008, desde então ele nunca mais deixou de existir. A associação é muito importante para a cidade, por que com o Festara, durante os doze anos em que eu fiquei à frente coordenando o festival, houve um crescente muito grande. Nós trabalhamos a formação de plateia, a difusão e o incentivo ao teatro.”, explica Melinksy.

Com o objetivo de preencher uma lacuna artística na cidade de Araçatuba foi criado, pela produtora Mancomunados, o CENATA em 2013, uma mostra de cenas curtas que durou quatro dias, teve vinte e duas apresentações de companhias da região e de outros estados brasileiros. Considerado uma mostra de cenas curtas, o CENATA resgata o valor competitivo que havia no festival de 1996, porém em uma versão menos espetacular. 

A produtora foi criada em 2012 por Melinsky e Fernando Fado, ambos possuem um currículo extenso como atores e produtores e o nome é inspirado no nome da companhia teatral que os dois faziam parte. O grupo Os Mancomunados foi criado com atores de Araçatuba formados pela prática e outros formados pelo curso técnico em Artes Dramáticas do Senac Araçatuba.

Paralelamente à produtora, Melinsky e Fado tinham um vinculo com a Associata, que crescia cada dia mais e conseguia recursos para o Festara, que se tornou cada vez mais importante e conhecido do araçatubense. A atual presidente da associação é Giulia Sorpilli, publicitária e atriz formada em 2013, ela conta que a associação teve seus altos e baixos, mas que sua valorização entre os artistas da região cresceu junto com o sucesso do Festara. 

“Hoje em dia a Associação realiza anualmente dois festivais e uma mostra. Além disso, abrimos o leque e abrangemos o maior número de artistas e ramificações do teatro. Antes, a Associação era só para atores, hoje ela acolhe também técnicos, produtores, músicos, dançarinos e tudo relacionado ao teatro. Acredito que o crescimento foi devido a adesão maior dos artistas, à procura”, conta Giulia. 

Partindo um pouco da ideia do CENATA, foi criado o Curta Teatro, mas desta vez com realização e planejamento da associação. A primeira edição foi em 2015 e não era competitiva. Após a segunda edição foi possível dar prêmios em dinheiro para os melhores colocados, como uma forma de incentivar os atores locais a não parar de produzir. 

Neste ano a mostra de cenas teve sua quarta edição, e, pela primeira vez, contou com um grande número de apresentações de grupos araçatubenses. Antes a maior parte das apresentações era de artistas de outras cidades e de universidades federais, o que foge da proposta, mas nunca impediu os organizadores de serem positivos quanto a produção local. 

“Levei um choque quando recebi o e-mail dizendo que minha cena foi aprovada. Desde então, foi uma grande vitória, me senti capaz! Mantive o foco no processo, desde a busca pelo elenco aos espaços para ensaios, não pensei tanto na questão de ser uma competição, estava preparado para o sim e o não. “, relata Malaquias Rodrigues, fundador da Cia. Três Linhas ele participou do Curta Teatro 2019 com uma peça de autoria própria e faz parte da 12ª turma de técnico em Teatro do Senac.

Ensaio da Cia. Três Linhas com o exercício cênico Depois da Meia-Noite. A companhia foi formada para apresentar-se no Curta Teatro e já trabalha em futuras apresentações. Na imagem estão alunos e ex-alunos do Senac. Da esquerda para a direita: Pedro Bispo, Tânia Martins, Malaquias Rodrigues, Luana Silva, João Buzzo e Denis Vinicius. Arquivo pessoal.

A atriz Gabriela Reis realiza apresentações desde 2018 e participou do Curta Teatro 2019 também. Suas cenas eram sempre solos e traziam uma carga muito forte contra o racismo na região, como a performance “Quero Ser Branca”. Sobre o curso técnico “É um misto de coisa boa, de contato e de troca. Eu gosto bastante de contato assim, então eu imagino que apresentar com várias pessoas em cena é uma coisa muito viva.”, conta Gabriela.

Performance da atriz e aluna Gabriela Reis no Festara 2018: Descolonizando sua mente. O texto “Quero Ser Branca” é de Denise Vaz e conta a história de uma menina negra que foi pega pela mãe tomando banho com sabão em pó na tentativa de clarear a pele. Foto: João F. Tavares Kawasaki.

Além do palco: aquilo que a plateia não vê

Existem dois termos para descrever uma apresentação teatral: apolíneo e o dionisíaco; estes termos falam sobre a estética, linguagem e texto. Os adjetivos foram estudados a fundo por Nietzsche, que chamou Apolíneo (relativo ao deus Apolo) o princípio que representa a razão como beleza harmoniosa e organizada. E denominou Dionisíaco (relativo ao deus Dionísio) o princípio que representa a embriaguez, o caos e a paixão. 

Apenas com este recorte fica claro o quanto um artista precisa estudar e o quanto o teatro foi uma arte discutida entre filósofos e sociólogos. O ator é uma constante modificação de si mesmo, não para nunca de estudar e atualizar-se socialmente. Pensando nisto os festivais da Associata trazem oficinas formativas, como foi o caso do festival de dança Corpos e sua oficina sobre Dança-Teatro com o professor Tato Brasil.

Considerado um agente social na história, desde sua criação o teatro tinha características políticas e educativas. Até hoje podemos ver estes dois elementos na região, como quando o teatro vai até escolas regionais contar sobre o folclore brasileiro ou quando fazem uma peça com dois homens no período apocalítico que apenas fumam e gritam “mito” enquanto batem palmas, como foi em Terra Plana, peça apresentada em 2019 no Senac Araçatuba.

Imagem de divulgação da peça Terra Plana, que flertava com o teatro do absurdo e fazia críticas contemporâneas a sociedade brasileira. A 11ª turma do técnico em Teatro formou-se em julho de 2019

Com toda essa carga de importância fica nítido entender os motivos de o teatro não ser algo “bem visto” socialmente ou ser visto como um entretenimento elitizado. Ao escolher ser ator é comum ouvir que é uma profissão desvalorizada e que ator não é um emprego de verdade, mas também é comum ouvir pessoas que nunca foram ao teatro por não terem roupa para tal. 

Com vários atores, atrizes e outros tipos de artistas, Araçatuba já possui uma considerável comunidade artística, cujo trabalho é reconhecido nos festivais promovidos pela Associata. O ator Igor Palmieri, formado em teatro, tentou viver apenas como ator durante dois anos e conseguiu, com dificuldades, sustentar-se durante este período. Este relato não é muito diferente da realidade de outros, eles sofrem com as dificuldades da desvalorização do público.

Longe de todo o glamour onde o artista é colocado, habita uma classe cansada, estudiosa e sem recursos para trabalhar. Ao mesmo tempo, há uma parte do público que não quer pagar para assistir peças, mas também criticam os apoios governamentais e os investimentos feitos em teatros. 

Incentivo

Na cidade de Araçatuba existe o PROAC Municípios, que possui uma quantia definida para repassar a grupos de teatro com categorias de: Montagem Inédita e Circulação. Além de outras categorias de incentivo à arte no geral. Não é fácil conseguir tal investimento, a parte burocrática e a documentação demandam tempo e dinheiro sem a segurança de que serão aprovados.

O grupo Empodera de Teatro foi um dos selecionados do PROAC – Municípios. A imagem ao lado é a de divulgação das últimas apresentações do grupo, que circulou pelo noroeste paulista com o espetáculo, oficinas de dramaturgia e rodas de conversa com o tema Mulher. O grupo é formado por ex-alunos do Senac e Heitor Gomes, o diretor e o docente da instituição.

Os trabalhos escolhidos para receber o benefício devem sustentar-se, fazem as montagens, ensaios, oficinas para o público e empregar artistas locais, o que pode gerar a falta de dinheiro ou o planejamento muda devido a inflação de um ano para o outro. Tal dificuldade faz com artistas façam apresentações cobrando e, caso seja fora dos festivais da associação, o público é mínimo e muitas vezes não é possível continuar.

Tal desvalorização é o motivo principal de tantos atores e atrizes abandonarem os palcos ou mudarem de cidade, em busca de novas perspectivas. A atriz Tânia Martins voltou aos palcos com a Cia. Três Linhas e acredita que a Associata possui um papel muito importante na valorização e incentivo dos atores regionais. A produção teatral jamais se resumiu ao estar em cena e, lentamente, Araçatuba reconhece artistas como profissionais que precisam pagar contas. 


Texto por Julia Boni, estudante do 5º semestre de Jornalismo.

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