Sentimentos e uma boa dose de emocore

O estilo que acompanhou milhares de jovens durante a turbulenta e conturbada adolescência


Mais que uma mera modinha juvenil, o emo se tornou um estilo de vida e transformou a vida de muitos adolescentes por todo o mundo. Considerado o último movimento mais importante do rock brasileiro pelo portal de notícias VICE, o emo deixou a sua marca e até hoje influencia outros gêneros e estilos.

O termo “emo” é uma abreviação da palavra emocore, que seria uma combinação de emotional (emocional) e hardcore. O estilo musical teve início nos Estados Unidos em meados dos anos 80 na cena punk rock e, enquanto bandas como os Sex Pistols, por exemplo, criticavam o sistema inglês nos anos 70, as bandas emo que vieram pouco tempo depois cantavam letras mais melódicas e sentimentais no cenário underground norte-americano.

Há fontes que associam o emocore também ao pop punk, tendo em vista que muitas bandas do gênero foram adotadas pelos chamados emos. Basicamente, toda banda que cantasse músicas mais emotivas com uma melodia mais pesada típica do rock, poderia ser considerada emo.

No Brasil, o estilo se estabeleceu por volta de 2003 na cidade de São Paulo e logo foi disseminando-se para grandes centros no Sul e Sudeste do país. Logo, jovens de várias partes do país compartilhavam deste novo estilo musical e as comunidades do Orkut dedicadas ao emo estavam a todo vapor.


A crescente onda do gênero musical emo

As consideradas pioneiras do estilo musical são bandas como Embrace e Rites of Spring, que aderiram às letras mais introspectivas com as influências sonoras do rock alternativo. Diversas outras bandas teriam passado e adaptado o estilo até sua popularização no final da década de 90 e início dos anos 2000.

No período em que o movimento emo estourou pelos Estados Unidos com a MTV, bandas como Simple Plan, Panic At The Disco, Fall Out Boy, Paramore e My Chemical Romance se expressavam através da música e ensinavam aos jovens que estava tudo bem ter sentimentos. A última banda citada, inclusive, trouxe o visual que ficaria tão característico à tribo emo: as franjas e o lápis de olho.

Recentemente, com as mudanças no estilo e a fusão deste com outros, as bandas que mais têm tido destaque e que ganharam os corações desses jovens são a britânica Asking Alexandria e a norte-americana Black Veil Brides (BVB). É importante ressaltar a diferença entre a sonoridade e o visual das mesmas em relação à geração de bandas anteriores. Na época em que se popularizaram, os seguidores do estilo emo já não escutavam apenas melodias tristes e apaixonadas, mas se aventuravam também pelo metal e por músicas mais pesadas.

A Asking Alexandria é uma banda que passou por diversas mudanças no decorrer dos álbuns, tanto sonoras quanto físicas. O primeiro álbum de estúdio deles, “Stand Up and Scream” (2009), traz jovens com visual típico dos emos, um vocal mais suave mesclado com screamos potentes e remetia bastante ao metalcore. Já no mais recente, autointitulado “Asking Alexandria” (2017), o vocalista Danny Worsnop – sem a franja, mas agora com uma barba – canta com menos screamos e com uma voz mais madura e ligeiramente rouca.

Asking Alexandria se popularizou em 2009 com seu som na hardcore e visual emo. Foto: Reprodução Facebook.

Em contrapartida, na estreia da banda, o Black Veil Brides apostou muito em um visual mais dark com pinturas corporais e maquiagem que se assemelhava à da banda de rock KISS. Inicialmente, eles usavam muitos screamos como na faixa “Knives and Pens” de “We Stitch These Wounds” (2010), primeiro álbum de estúdio deles. Enquanto o BVB trocava a maquiagem preta pelo visual “cara limpa”, o vocalista Andy Biersack mantinha a mesma voz profunda de tonalidade grave ao longo dos anos e dos álbuns.

Foi com a banda Black Veil Brides que Clesley Donato conheceu o emo na sua adolescência. Na época, com 15 anos, ele descobriu o estilo em seu Orkut e por conta de alguns amigos. “As músicas pareciam descrever muito o que eu sentia. Fora que fui gostando do visual também”, relata o jovem, que também era muito fã da banda Asking Alexandria.

Apesar de ter recebido olhares tortos e xingamentos homofóbicos, o jovem – que hoje não se considera mais emo – conta que o estilo parecia se encaixar perfeitamente com ele e com a fase que vivia.


A explosão do emo no Brasil

No início dos anos 2000, enquanto essas bandas citadas deslanchavam na gringa, NX Zero, Fresno, Forfun, Hevo84 e Strike eram as mais tocadas nos Ipods e MP3 Player de muitos emos brasileiros. Embora muitas delas não se reconhecessem como parte do movimento, por terem melodias profundas foram logo adotadas pelos seguidores do estilo e incorporadas como referência dentro do cenário emo. Até hoje, quando se fala em banda emo logo alguma dessas bandas é mencionada. Não há como fugir, galera.

Quem realmente não gosta de ser chamada de emo é a banda paulistana NX Zero. O segundo álbum deles autointitulado lançado no ano de 2006 trouxe hits como “Pela Última Vez” e “Razões e Emoções”. Com a nova sonoridade, os caras abriram portas para que os jovens e as produtoras brasileiras adotassem o movimento, possibilitando o surgimento de outras bandas como a Glória.

Apesar disso, o vocalista do NX, Di Ferreiro, em uma entrevista ao portal Terra durante o projeto MTV Ao Vivo 5 Bandas de Rock trouxe à tona a insatisfação da banda em serem chamados de emos: “Quando a gente começou a aparecer, isso me deixava frustrado porque as pessoas ouviam que era emo e nem iam atrás do som pra saber como era. Nenhuma banda se considera emo por causa disso”.


Mais que música, um estilo de vida

O emo se tornou um movimento tão importante que passou as barreiras musicais e foi adotado como estilo. Foi quando jovens e adolescentes criaram entre si uma identidade e uma cultura, caracterizadas pelo visual e pela vestimenta.

Os cabelos são pretos e podem ter algumas mechas coloridas. O elemento mais característico da tribo emo, com certeza, são as franjas. Elas cobrem apenas um dos olhos ou, então, ficam na altura das sobrancelhas e são jogadas para o lado esquerdo ou direito – o que ressaltar mais o corte repicado da franja. O corte é fácil de fazer e no YouTube você encontra diversos tutoriais de adolescentes ensinando a repicar o cabelo e a franja com uma navalha ou mesmo com uma lâmina de barbear.

Os garotos podem ter também mullets, que são uma extensão do cabelo, normalmente muito repicada, que pode chegar na altura dos ombros. No contorno dos olhos predomina o uso de lápis de olho preto bem forte e marcado. É comum ver emos com piercings também e eles podem estar nos lábios ou em uma das sobrancelhas, por exemplo. Os gêmeos Bill e Tom Kaulitz, o vocalista e o baixista da banda alemã Tokio Hotel, respectivamente, são sempre vistos com piercings nas regiões citadas e fazem um enorme sucesso entre os fãs. O restante da vestimenta é composto por camisetas pretas, calça jeans skinny, cinto de rebite, meias listradas e, é claro, os tênis All Star ou Vans.


Um estilo rodeado por preconceitos

A universitária Evelyn Gonçalves conheceu o estilo por volta de 2009, quando houve o auge emo no Brasil. De acordo com ela, foram os programas da MTV que a fizeram se identificar com o que as letras da música emo diziam. “As músicas eram a única coisa que me davam a sensação de lugar no mundo”, conta a jovem.

O que Evelyn não imaginava é que essa sensação de pertencimento também traria exclusão do grupo ao qual ela se tornou parte. Dentro da comunidade emo, a estudante relata que era preterida por não ser branca e por usar o cabelo natural crespo juntamente com a franja. “Eu acabava não me sentindo aceita pelos outros”, afirma.

Cansada de se sentir excluída entre os emos, Evelyn procurou a amizade de jovens de outras tribos. Fez amigos adeptos do punk e do grunge e, entre eles, era aceita e reconhecida como emo independente da cor de sua pele ou da textura de seu cabelo.

Além desse tipo de preconceito, outro famoso esteréotipo que permeia acerca da imagem dos emos é a questão da sexualidade. Garotos emos, assim como o Clesley, citado no começo da reportagem, ouviam insultos e comentários homofóbicos em todos os lugares. Aparentemente, pelo simples fato de expressarem seus sentimentos e usarem maquiagem, esses adolescentes eram vítimas de chacotas na internet.

Na verdade, ser chamado de emo por muito tempo foi ofensivo, tanto é que muitas bandas sequer queriam seus nomes associados ao movimento.

Recentemente, o jornalista estadunidense Glenn Greenwald expressou seu gosto pela banda Fresno no Twitter e logo foi chamado por muitos internautas de emo. Em um encontro com Greenwald, o vocalista do Fresno, Lucas Silveira, explicou a ele por que ser emo no Brasil não era algo bem visto.

“O Glenn não entendia porque gostar de Fresno fazia dele um ‘emo’. Passamos uma tarde falando sobre isso e muitas outras coisas. É muito curioso explicar para alguém ‘de fora’ por que esse rótulo já foi pejorativo”, o cantor comentou na legenda de sua foto com o jornalista no Instagram.


As letras sensíveis que cativaram uma geração

Não eram somente as melodias similares às do punk rock que chamaram a atenção dos jovens na música emo. As letras sentimentais que falavam desta fase tão conturbada chamada adolescência, cantavam sobre primeiro amor, desilusões amorosas, solidão, relacionamentos complicados com os pais, incertezas do futuro, entre outros.

Muitos jovens, por se sentirem sozinhos e deslocados, procuram apoio na música. O emocore se torna o principal suporte deste adolescente, fazendo-o perceber que ele não está sozinho. A ligação emocional com esse tipo de música, muitas vezes, é a única forma de conseguir expressar sentimentos durante essa fase tão importante e cheia de incertezas.

Um exemplo disso é a música Perfect (2002) da banda Simple Plan, que fala sobre um jovem e suas inseguranças com o pai. A letra tocante aliada à melodia, tornaram a faixa o maior hit dos caras alcançando altas colocações nos Charts dos Estados Unidos, Austrália, Canadá e Nova Zelândia.

 “Hey, dad, look at me
Think back and talk to me
Did I grow up according to the plan?
And do you think I’m wasting my time
Doing things I wanna do?
But it hurts when you disapprove all along

And now I try hard to make it
I just wanna make you proud
I’m never gonna be good enough for you
I can’t pretend that I’m alright
And you can’t change me

‘Cause we lost it all
Nothing lasts forever
I’m sorry
I can’t be perfect
Now it’s just too late
And we can’t go back
I’m sorry
I can’t be perfect”

Perfect – Simple Plan

Emo scene: cabelo colorido e uma personalidade fofa

Ditas como subcultura distintas, o emo e o scene são o famoso par oposto e complementar. Enquanto o emo é mais melancólico e usa roupas pretas, a subcultura scene é mais fashionista e escuta diversos estilos de música, desde metalcore a música eletrônica. Há também a fusão dos dois estilos: o emo scene, um estilo de emo mais atual. É entre esses jovens que as já citadas bandas Asking Alexandria e Black Veil Brides ganharam notoriedade, além de outras bandas como Pierce The Veil, Sleeping With Sirens e Falling in Reverse.

O emo scene trouxe também elementos de outros grupos, por isso, é muito comum que os integrantes dessa vertente tenham gosto por coisas consideradas fofas, como a cultura japonesa, por exemplo. Emo assistindo anime e escutando j-rock? Sim, é algo perfeitamente cabível. A partir do momento em que o emo se tornou um movimento social e não só musical, criou-se uma identidade e uma cultura que puderam ser transformadas e difundidas desde então pelos integrantes do grupo.

Amábile Lucya, de 17 anos, vive em Santa Catarina, é emo e scene, escuta rock e metal japonês, assiste animes e é muito fã de Black Veil Brides. Além disso, ela compartilha os mesmos gostos com diversos amigos, os quais ela conheceu através do estilo.

A adolescente conta que foi socialmente aceita como emo antes mesmo de saber do que se tratava o termo. “Uma vez, eu estava sentada no banco da escola lendo e ouvi uma garota dizer: ‘aquela menina emo é muito fofa’. Ela estava falando de mim e eu não sabia o que era emo”, conta.

Por sua timidez, seu modo de vestir (roupas pretas e camisetas de banda) e pelo modo de usar o cabelo, com a franja cobrindo o rosto para, como ela relata, “se esconder”, Amábile foi vista como emo. Após o ocorrido, a jovem pesquisou sobre o termo, se identificou com o estilo e passou a se reconhecer como integrante da tribo.


Restart e o happy rock

A banda brasileira Restart foi formada em 2008 e teve enorme sucesso com hits como “Levo Comigo” (2009), “Recomeçar” (2009) e “Matemática” (2011), conquistando uma legião de fãs por todo o país. Indo contra a onda de bandas de rock pesado e melancólico da época, eles surgiram com músicas mais leves que falavam sobre amor de uma forma feliz. Esse tipo de música , denominado como “happy rock”, era um estilo que já existia em outros países, mas não era tão popular no Brasil. Bom, até o Restart.

O visual característico dos garotos ditou moda e em todos os lugares você poderia ver um adolescente de franja, cabelo repicado, calça jeans colorida, óculos (muitas vezes sem lentes) e, muito provavelmente, um relógio colorido que trocava a pulseira. Com um estilo que foi duramente criticado por alguns, mas amado por outros, os adeptos do happy rock muitas vezes eram os mesmos que abraçaram o emo e o scene.

A banda Restart fez sucesso entre os emos e scenes com suas músicas que falavam sobre amor e seu visual colorido. Foto: Divulgação.

Além do Restart, bandas como Cine e Replace tocavam às alturas nos Ipods de muitos adolescentes brasileiros e marcaram uma geração, sendo lembradas até hoje quando fala-se em emo. Sim, novamente, mesmo com muitas dessas bandas tentando fugir do estilo, qual emo não chorou ouvindo “As Cores” (2009) do Cine? Por isso, não há como falar em emo no Brasil sem mencionar as chamadas “bandas coloridas” também.


A MCR ressurge e, aparentemente, os emos também

Difícil também falar de movimento emo sem citá-los. A banda My Chemical Romance se formou em 2001 e durante toda a sua trajetória misturou elementos do rock alternativo, da ópera e do emocore. Em 2006, chamaram bastante atenção do público com o álbum “The Black Parade”, que continha alguns de seus hits como “Welcome to the Black Parade“, “Cancer” e “Mama“.

Uma banda de grande influência para os emos, a MRC foi uma das responsáveis por trazer inúmeros jovens para o estilo. Suas músicas sentimentais com fortes arranjos de rock alternativo fizeram parte da vida da maioria dos que seguiam o emocore nos anos 2000. Porém, em 2013 anunciaram o seu fim e desde então não ganharam muito destaque na mídia.

Para a surpresa de muitos, em 31 de outubro de 2019 um post na fanpage da banda viralizou. Houve um show em Los Angeles em 20 de Dezembro e um vídeo lançado no Youtube em 29 de Janeiro de 2020 confirmou uma nova turnê em solo norte-americano. Nas redes sociais o agito dos fãs foi evidente e mesmo aqueles que há tempos não acompanhavam mais o emo ficaram entusiasmados com esse retorno repentino.

No aplicativo Tik Tok, inclusive, vários fãs comemoraram a volta do My Chemical Romance com edições de vídeos nas quais se produziam novamente com o visual emo.


O que houve com os emos? Onde foram parar?

Recentemente, tem sido difícil encontrar emos nas ruas e até mesmo na internet. Popularizou-se um novo estilo no qual os garotos são chamados de e-boys e as garotas de e-girl. Esse estilo assemelha-se bastante com o emo e com outros estilos como o gótico e o punk. O sufixo “e” vem de electronic e o movimento se originou de aplicativos como Tik Tok e Instagram. As e-girls e os e-boys escutam outros tipos de músicas e há quem diga que no visual se inspiram também em artistas como Avril Lavigne e Billie Eilish.

Mas, então, onde estão os emos? É simples: eles cresceram e andam entre nós. Não mais com suas franjas e sua maquiagem forte – em grande maioria -, mas carregam dentro de si a identidade emo.

Um bom exemplo disso é a universitária Vivian Alkimin. Sua prima mostrou a ela algumas bandas emo e, foi então que, em meados de 2009, acabou se identificando com o movimento e com as músicas. Durante sua adolescência, Vivian foi “abraçada” (como ela mesma se referiu) pelo emocore, dos sentimentos mais profundos até o visual característico.

Mesmo hoje em dia ela ainda escuta algumas bandas como Paramore, Pierce The Veil, Black Veil Brides, Bring Me The Horizon, My Chemical Romance e Tokio Hotel. Bandas que a embalaram em momentos difíceis quando mais jovem e a acompanham até hoje na fase adulta.

Vivian não se caracteriza com o estilo emo, mas ainda se sente parte dele. Seja pela vestimenta ou não, o que as músicas passaram para esses adolescentes (já adultos nos dias atuais) foi a mensagem de que não tem problema em ter sentimentos e em expressá-los. Ensinou-os a entender a si próprios e também os acolheu em momentos complicados. 

Como Vivian disse: “As músicas sobre o amor, sobre os problemas que os jovens passavam, acho que foi um grande movimento porque muitos adolescentes se identificavam com isso e se sentiam acolhidos”. Como ela mesma resume, era um forte sentimento de “não estou sozinho”. E realmente não estavam. Tinham uma tribo e a música para confortá-los.


Texto por Larissa Gomes – estudante do 5º Semestre de Jornalismo

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