Doses de nostalgia e inspiração

Em Gilmore Girls, mãe e filha mostraram que as mulheres podem ser as protagonistas de suas vidas

Por Giovanna Borin, estudante de Jornalismo no UniToledo Araçatuba

Já estamos acostumados com séries e filmes abordando questões feministas e incentivando o empoderamento feminino. É um assunto recorrente no dia a dia, logo seria também na ficção. Mas há 20 anos a dinâmica da programação era bem diferente. E nesse contexto surge um seriado juvenil que se destacou dos demais.

Iniciada nos anos 2000, Gilmore Girls foi febre, em especial entre adolescentes, durante os sete anos no ar. Depois disso, continuou ganhando fãs. E quase duas décadas após seu primeiro episódio, além do sucesso, suas discussões ainda são atuais. É a famosa comfort serie quando você gosta tanto que volta sempre para sentir a sensação boa e acolhedora que só nossos seriados favoritos conseguem trazer.

Estamos falando da história de Lorelai e Rory Gilmore, mãe e filha que vivem na pitoresca cidade de Stars Hollow, Connecticut. Ao longo das temporadas, foi possível acompanhar a trajetória das duas e de seus amigos e familiares. Ao abordar temas como maternidade solo, independência, estudos, carreira, relacionamentos – amorosos e familiares -, a trama conquistou a audiência e se tornou um marco para a representatividade feminina na televisão norte-americana.

“Era uma série feminista mesmo antes de isso ser um tópico forte como é hoje. Porque mostrava um relacionamento entre mãe e filha cheio de amor. Você não via isso naquele tempo. A maioria das relações entre personagens femininos era competitiva. Nem era centrada no casal homem e mulher. Nós duas éramos, de certa forma, o casal”

Alexis Bledel, a Rory

Tudo começa quando Rory, aluna dedicada, é aceita em uma escola preparatória. Então, Lorelai percebe que não conseguirá pagar pelos estudos da filha e decide engolir o orgulho e procurar por seus pais, Richard e Emily, e pedir ajuda financeira. É assim que, logo no piloto, descobrimos o conflito existente na família. Acontece que a relação conturbada de Lore e o casal é antiga. Quando adolescente, ficou grávida do namorado, Christopher. Seus pais esperavam que a filha rebelde se casasse, mas não foi o que ela fez. Aos 16 anos, Lorelai, que não se considerava pronta para assumir um compromisso como o casamento e também achava o pai da criança imaturo, saiu da casa da família e foi criar a filha longe do luxo que ofereciam. Sem experiência, arrumou um emprego como camareira em um hotel na cidade de Stars Hollow, e passou por alguns cargos até ser promovida a gerente do Independence Inn. Assim, conseguiu criar Rory à sua maneira, fiel aos seus princípios.

Também é influencer

Séries, filmes, livros, música. Nós amamos e é inegável que, além de passatempo, são grandes influenciadores. O cabelo da moda, as roupas, os lugares, as comidas, as profissões, os bordões. Quem nunca se pegou querendo fazer algo igual ao personagem favorito ou citando algum bordão famoso?

Pensando nisso, é interessante usar a influência desses meios para propagar mensagens importantes, em especial para seu público-alvo. Foi o que aconteceu. O seriado voltado para adolescentes abordou temas que fazem parte do mundo desses telespectadores e que podem ser inspiradores nessa fase da vida.

Julia Macri, 21, conta que começou a acompanhar Gilmore Girls há alguns anos, no final da adolescência, por indicação de uma amiga. Ela adorou o programa e continua reprisando. Para a universitária, a série é inspiradora e, em especial para o público-alvo, adolescentes, a discussão dos temas apresentados pode ser importante. “É na infância e adolescência que desenvolvermos a maior parte do nosso senso crítico”, comenta.

Girl power

Para Joanna Burigo, fundadora da Casa da Mãe Joanna, Gilmore Girls é uma das séries mais feministas da TV pré-Netflix. A especialista em gênero, mídia e cultura afirma que “apesar de a história ser pontuada por paixões, não são elas que compõem o foco da narrativa. O que amarra e expande a série mesmo é o desenvolvimento pessoal, profissional e acadêmico das garotas e seus convivas”. E isso é mostrado não somente pelas atitudes das garotas, mas também por livros, filmes e personagens citados por elas, como lembrou a publicitária e escritora em matéria para Carta Capital.

Em entrevista, Lauren Graham – interprete da mãe – falou sobre a atitude de sua personagem e como foi trabalhada durante o seriado. “Lorelai naquela época já era considerada progressiva em termos de como ela retratava o papel da mãe solteira na TV. Ela trabalhava, era mãe, mas essas eram apenas duas de suas características”, declarou. “E outra coisa: ela não estava nem um pouco preocupada com quem ela terminaria, se ela teria um par romântico. Talvez por isso foi visto como um programa feminista”, completa.

Não são só as Gilmore os exemplos de mulheres empoderadas. No decorrer do programa, conhecemos várias personagens que mostram sua força, suas personalidades e suas conquistas – na vida profissional e na pessoal.

Podemos observar a diversidade no universo criado por Amy Sherman-Palladino em muitos detalhes espalhados pelos episódios. As personagens vão de dona de casa rica à mecânica da cidade, de mãe solteira que trabalha fora à mãe conservadora e religiosa que trabalha em casa. Palladino criou representações em diferentes níveis sociais, estilos de vida, biotipos, objetivos e sonhos.

Julia também ressalta as atitudes “girl power” da Lorelai, como “seu modo de criar a filha, ter tomado a frente da sua vida e arrumado um emprego, abrir seu próprio negócio, comprar sua casa”. Tudo que ela conquistou, e mostrando que ela podia ser quem quisesse ser, marcaram essa característica empoderada que a história tem.

É impossível falar de Gilmore Girls – e em especial da protagonista mãe – e não falar de um dos fatos mais marcantes de todo o seriado: Lorelai deu seu próprio nome à filha. Rory explica isso no primeiro episódio: “Minha mãe estava no hospital, pensando em como homens sempre dão seus próprios nomes a seus filhos. Por que mulheres não poderiam fazer o mesmo? Ela conta que seu feminismo falou mais alto”.

Lorelai, a filha, como oradora da turma do ensino médio. Em seu discurso, homenageou a mãe – também Lorelai – por ser seu exemplo e maior inspiração
(reprodução: Warner Bros. Television)

“Minha maior inspiração vem da minha melhor amiga, a deslumbrante mulher, de quem recebi o nome e a vida, Lorelai Gilmore. Minha mãe nunca me deu qualquer ideia de que eu não poderia fazer ou ser o que quisesse(…)”

Rory Gilmore

E elas voltaram

A matriarca, Emily, e a filha Lorelai e a neta Rory
(reprodução: Netflix)

Em 2016, a Netflix em parceria com o casal Palladino, criadores da série, produziu um revival de quatro episódios intitulado Gilmore Girls: A Year In The Life. Quase uma década depois do seu – até então – final, o show voltou trazendo com ele os saudosos personagens.

Em meio a nostalgia desse retorno e a alegria de poder maratonar a série que antes se via na TV somente uma vez por semana, o que mais se especulava eram os destinos de cada um. Em especial, as protagonistas e as mulheres próximas a elas – como Emily, a avó; a melhor amiga de Lorelai, Sookie; e as amigas de Rory, Lane e Paris. 

Conforme descobríamos como cada uma se saiu, também acompanhamos a jornada das mulheres da família – cada uma com seus próprios dilemas. A sensação de rever os personagens anos mais tarde, vivendo novos desafios é muito boa. Melhor ainda é ver o sucesso do passado nos dias atuais, ver a série sendo trabalhada hoje e comparar as diferenças na maneira de abordar aqueles mesmos assuntos em diferentes épocas.

Cada episódio é uma dose de inspiração, seja no corte de cabelo ou na reflexão sobre seus sonhos e planos futuros. Com um toque da magia do início dos anos 2000, em especial para quem foi criança ou adolescente naquela década, é possível sentir o clima leve que permeia o seriado, mesmo com os dramas familiares. E assim, um programa juvenil dosou drama com comédia, diálogos rápidos e inteligentes com referências à cultura pop. E, marcou um geração.

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