Corpo Fechado: Heroísmo sem glamour nas salas de cinema


Andando contra a onda da supremacia cinematográfica das editoras de quadrinhos DC e Marvel, o diretor M. Night Shyamalan apresentou uma visão crua e realística da problemática do mundo dos heróis

Por Maria Eduarda Ramos

O mundo dos heróis vem conquistando cada vez mais o público das salas de cinema, sendo considerados grandes blockbusters* e alcançando bilheterias extraordinárias, além de quebrar recordes e serem responsáveis, algumas vezes, em alavancar a carreira de atores, diretores e demais envolvidos por trás dessas produções.

Pôster com principais heróis da DC Comics – Site Euro Posters

Editoras de quadrinhos desbravaram as novas tecnologias cinematográficas e passaram a produzir seus próprios filmes, como as gigantes Marvel e DC Comics, conquistando uma legião de fãs ao fazer de seus personagens super poderosos em meios de consumo de massa. Personagens como Superman, Batman, Capitão América, Hulk, entre outros, foram pontos importantes para a construção do conceito de heróis, muitas vezes acompanhando temáticas e abordagens atuais em seus roteiros, incentivando a produção de franquias e as colocando um cenário lucrativo da arte cinematográfica.

De acordo com muitos sites especializados em cinema, desde que a nova onda heroica tomou conta do entretenimento mundial, as adaptações dos quadrinhos, muitas vezes, foram as maiores bilheterias de seus respectivos anos de lançamento. “Vingadores: Ultimato” (2019), o filme que encerra a saga dos Vingadores nas telas, bateu o recorde de maior bilheteria da história com seus 2,798 bilhões de dólares.

M. Night Shyamalan na premiere de Glass em Londres, Reino Unido – Deccan Harald

Entretanto, no ano 2000, o diretor M. Night Shyamalan, que antes tinha mostrado um bom desempenho no gênero de terror psicológico com Sexto Sentido (1999), apresentou a perspectiva dos heróis num contexto menos fantasioso e ainda não experimentado pelos amantes (e os que também não eram apreciadores) de tal universo com o aclamado Corpo Fechado, lançado no Brasil em 2001. Até então, a sétima arte estava acostumada com produções exclusivamente voltadas para o universo construído pelas editoras, que apresentavam um universo mais fantasioso e unicamente irreal. Com essa obra, Shyamalan deu início a uma trilogia que tinha planos de ganhar vida, popularmente conhecida como “A Trilogia de Corpo Fechado”. Sem aliens, sem uniformes chamativos ou batalhas arrebatadoras, apenas o poder, sua construção e suas consequências.

A construção de cada história

Corpo Fechado (2000)

Corpo Fechado (2000) – Site Telecine Play

O filme que dá o pontapé inicial à história e que se tornou um clássico do início da década, conta a história de David Dunn (Bruce Willis), o único sobrevivente de um fatal acidente de trem. Ileso e sem qualquer ideia do que poderia ter acontecido para que saísse vivo do ocorrido, o protagonista chega ao excêntrico colecionador de arte em quadrinhos Elijah Price (Samuel L. Jackson), dando início a uma busca sobre sua própria verdade: ser indestrutível. Entre o reconhecimento do seu super poder e a relação instável de David com sua esposa e filho, a trama permeia traços da técnica da “jornada do herói” enquanto o coloca em situações convencionais complexas até o ápice da descomunal força, exposta como a elevação de um homem comum ao status de protetor heroico da sociedade.

Comentário do diretor:

Durante entrevista no painel da CCXP* 2018, o Shyamalan destacou a dificuldade em produzir Corpo Fechado na época. Segundo ele, as distribuidoras não eram abertas para investimentos em filmes de heróis. A produção, inclusive, foi oferecida a Disney, mas a mesma se negou a apostar da ideia, pois, segundo a empresa, “super-heróis não eram comercializáveis”.

Curiosidades:

  1. Diversos ângulos de câmera foram escolhidos para simular como a história seria apresentada caso estivesse em uma revista em quadrinhos;
  2. O nome Elijah é uma referência bíblica feita por M. Night Shyamalan. Elijah retornou à Terra para cuidar do retorno do filho de David, o salvador;
  3. A intenção de M. Night Shyamalan era que Corpo Fechado fosse o primeiro filme de uma trilogia. Entretanto, o desempenho apenas regular nas bilheterias americanas, onde arrecadou US$ 95 milhões, impossibilitou que o projeto seguisse adiante (na época, claro).

Crítica:

De um modo geral, a crítica especializada se referiu ao filme com uma boa avaliação. Com ideias revolucionárias de fotografia e filmagem, os especialistas foram gentis com a proposta do diretor, fato que não se repetiu no público. De acordo com o crítico Raphael Carmo, do site Cosmo Nerd, os motivos para os espectadores rejeitarem o projeto e darem uma bilheteria fraca o suficiente para que a trilogia fosse adiante se resumiram em dois pontos. No primeiro, ele aponta o marketing como influência no “fracasso”. “Depois de Sexto Sentido, as pessoas estavam esperando algo no mesmo nível e com as mesmas temáticas. Até mesmo o título brasileiro tenta pegar essa onda do sobrenatural com um título que não tem nada a ver com a obra original” afirma. A segunda razão está no período de lançamento. Como citado anteriormente nesse material, naquela época, pouco interessava a indústria cinematográfica as histórias de heróis e a cultura dos quadrinhos ainda não era tão presente como hoje. “Seu personagem principal é alguém falho que não é nada fácil de gostar, sendo essa uma das mais ousadas ideias do filme. Um longa que possui uma fotografia muito bem pensada, cheia de simbologias e mensagens escondidas tanto para aqueles que estão no mundo dos quadrinhos, como também as pessoas que estão entrando nesse mundo” conclui a crítica.

Fragmentado (2016)

Fragmentado (2016) – Site Dicas de Cinema

Diferente do que as franquias costumam apresentar em sua ordem de divulgação, o segundo filme da trilogia, Fragmentado, foi apresentado como uma obra isolada e que, inicialmente, não possuía fortes ligações com o primogênito desse universo. Na história, nós somos apresentados ao jovem Kevin Wendell Crumb (James McAvoy), um homem que possui TDI (Transtorno Dissociativo de Identidade) com mais de vinte personalidades sequestra três garotas para alimentar uma ainda desconhecida, mas que se apresenta perigosa no decorrer do filme, mesmo não estando fisicamente presente até o último ato. Resgatando o conceito de terror psicológico de Sexto Sentido, os personagens do núcleo principal remetem aos detalhes de Corpo Fechado, além de um final com pontas soltas e um easter egg* bem direto ao longa de 2000.

Comentário do diretor:

Em entrevista de divulgação do filme, o diretor deu muitos detalhes sobre como preferiu efeitos mais práticos e menos tecnológicos para as filmagens. Poucos efeitos e uso de CGI*, com um ponto de vista mais próximo da ótica dele mesmo. “Penso em estruturas narrativas, penso em como contar uma história onde há um vilão, onde uma mulher que é boa e outra pessoa que tem segredos. Como contar essa história? Então, há um momento de revelação, de epifania” diz, mas evidenciando a narrativa que engana o público e trazendo de volta os conceitos de sutileza visual do anterior.

Curiosidades:

  1. Na casa da terapeuta de Kevin aparece o livro intitulado Sybil, nome de um filme sobre uma garota com múltiplas personalidades;
  2. A trama foi filmada na cidade natal do diretor M. Night Shyamalan;
  3. M. Night Shyamalan divulgou em uma de suas redes sociais que a cena de 24 escovas de dentes foram refilmadas várias vezes até que a sombra delas se assemelhasse à sombra de uma pessoa.

Crítica:

A crítica, de forma geral, sustentou a opinião de que Fragmentado tem uma boa premissa, mas que por pouco quase caiu na onda de filmes de má avaliação que o diretor já fez. “Caso se decidisse por um caminho ou outro, é bem provável que o diretor fosse bem sucedido – e só. Ele deseja mais, no entanto, e isso é evidente. Não por acaso a referência inicial ao clássico de Hitchcock – Shyamalan não quer ser apenas um autor, ele busca ser também uma ‘assinatura’. Quer ser reconhecido, esperado, aplaudido até mais que suas histórias ou personagens. Uma vez percebida essa conexão (com Corpo Fechado), verifica-se aqui uma vontade oposta, de revelar o nascimento de uma força do mal, talvez igualmente poderosa, mas ainda assim problemática. E ele não poderia ter sido mais explícito neste retorno às origens” explica o crítico Robledo Milani, do portal Papo de Cinema. “Fragmentado, dessa forma, ganha corpo além do mero entretenimento descartável justamente em sua cena final, quando em uma reviravolta o diretor oferece uma nova dinâmica ao conto narrado. Até esse ponto, no entanto, há muito a ser relevado, caso o espectador tenha boa vontade” conclui.

Vidro (2019)

Glass (2019) – Site Fandango Now

Assumido como o filme de encerramento da trilogia, Glass (ou Vidro) trás o embate do herói David Dunn (Willis) e a Fera (McAvoy), influenciado pela mente evidentemente perversa de Elijah Price (Jackson). O enredo se passa numa clínica de estudos psicológicos onde o trio é mantido preso pela Dra. Ellie Staple (Sarah Paulson), que afirma conscientemente que seus poderes provém de um delírio mental. Com um final fora do convencional para o conceito de heróis, o filme encerra a trajetória da história de quase duas décadas de existência.

Comentário do diretor:

Com empolgação, M. Night Shyamalan foi convicto em afirmar que o filme poderia ter mais de três horas de duração. A justificativa foi simples “Essa foi a primeira vez que eu estava escrevendo a respeito de personagens que eu já conhecia. Então pude escrever bastante, e isso não é normal. Normalmente, ainda estou descobrindo os personagens enquanto escrevo, e assim que os desvendo totalmente, acabo a história” disse em entrevista ao site Collider, logo após a estreia do filme.

Curiosidades:

  1. O terceiro filme foi distribuído pelos estúdios Disney;
  2. No Brasil, foram vendidas 1.374.057 entradas durante o período que ele ficou em cartaz;
  3. Cada filme se enquadra num gênero cinematográfico diferente: Corpo Fechado como Drama/Mistério; Fragmentado como Thriller/Terror psicológico e Vidro como Suspense/Fantasia.

Crítica:

Praticamente unânime, a opinião dos especialistas e público seguiu a mesma linha, costumeiramente acompanhada de um “seria especial, mas…”. “Vidro sofre com a expectativa criada por conta do sucesso dos antecessores, mas ainda vale o ingresso. Shyamalan poderia ter trabalhado melhor a ideia central e feito um longa tão incrível quanto Corpo Fechado e Fragmentado, mas preferiu fazer um bom filme seguro, com boas cenas de ação que ficou “apenas” bom” justifica o crítico Fábio de Souza Gomes, do site de entretenimento Omelete.

Nem só de blockbusters vive a indústria cinematográfica…

Capa alternativa de Corpo Fechado – Site Plano Crítico

… pois a realização deste trabalho trouxe, para esse mercado, uma visão nova para os que preferem o bem e o mal protagonizados por heróis mais reais. Matheus Bosquetti, 21, é um notável fã da saga e possui uma opinião sincera sobre o trabalho de Shyamalan no desenvolvimento da história. Apesar de não ter acompanhado a história do primeiro filme na época de lançamento, ele concorda com a resposta geral de que o diretor construiu uma trama impecável e que une o espectador com a história da tela. “O filme consegue pegar a essência simples de uma trama de super heróis que estavam em acessão no cenário cinematográfico e adicionar complexidade, mistério, carisma e profundidade em apenas 1 hora e 40 minutos de tela” justifica. Sobre a continuação de 2016, Matheus diz que foi o filme que mais instigou sua empolgação para um provável novo desdobramento do clássico de 16 anos atrás. “Para a minha felicidade foi incrível, a história, a direção, a atuação, foi tudo perfeito, e quando chegou no final, que dava aquele gostinho de quero mais, aparece o David vendo a notícia sobre o Kevin, mostrando que os universos de Fragmentado e Corpo Fechado eram sim compartilhados, fez com que eu tremesse de alegria, junto com o anúncio de Vidro, que fez com que eu explodisse em órbita!” mostrou positividade, apesar de erros técnicos ainda perdoáveis pela crítica.

Capa alternativa de Fragmentado (2016) – Site Adoro Cinema

O terceiro filme foi, de longe, o mais decepcionante na opinião de Matheus. Assim como a maior parte dos fãs, a expectativa para o encontro dos três personagens e para um final épico no mesmo tom do resto da obra era alta, com uma decepção evidente. “O filme foi bom, um pouco mal executado ao meu ver, que estava tão empolgado por ver todos juntos. A história pegou a premissa simples e fez o que M. Night Shyamalan está acostumado a fazer, viajou em situações controversas, colocou personagens sem embasamento e profundidade” explicou inicialmente, logo acrescentando alguns detalhes falhos em Vidro “A ideia de confinamento dos personagens pareceu legal, mas mal executada. Os mecanismos de inundação para o David e os flashs que faziam Kevin mudar de personalidade foram colocados lá como se a história dos outros filmes fosse esquecida. No primeiro, David não teve todos os limites explorados e depois de tantos anos sendo herói, não descobriu com muitos anos de experiência como vigilante, ele não tem nenhum recurso para a fraqueza dele? Não descobriu as capacidades do corpo, a força dele?É muito improvável, fica vago. Sem contar o fato do Kevin conseguir levantar um carro mas é parado por um sistema de flashes que alternam sua personalidade, sendo que um milésimo da Fera na luz poderia destruir tudo aquilo?” conclui.

Se a minha opinião conta…

Site Unsplash

Mesmo sem ser especialista no assunto ou uma grande cinéfila com grande bagagem cultural cinematográfica, a autora que vos escreve assume que, como grande fã da trilogia, estive ciente da visão dividida da audiência com Shyamalan antes mesmo de assistir o primeiro filme. Depois de emergir e sentir uma interação sutil da história dos personagens entre si e conosco, espectadores, decidi acompanhar até onde essa história iria e se valeria a pena. Valeu. A partir do segundo, me senti bem mais ansiosa para a progressão dos fatos, apesar de ler algumas críticas que não o consideravam tão bem quanto Corpo Fechado, mas a ousadia de trabalhar com algo tão complexo me fascinou. Algo errado obviamente ocorreu no terceiro. O diretor estava empolgado e o valor de investimento era alto, mas tudo acabou virando uma bagunça dentro de um roteiro certamente bom. A quase ausência de David Dunn (Bruce Willis) e outros personagens da obra original, a tentativa forçada de colocar quase todas as personalidades de Kevin Wendell Crumb (James McAvoy) numa única cena e até a disfarçada porém notória e problemática romantização da relação de Casey Cooke (Anya Taylor-Joy) com Kevin me incomodou muito, se considerarmos o enredo da personagem como uma estudante do Ensino Médio e ele, um homem adulto na faixa dos 30 e poucos. O final foi desastroso, uma completa gama de misturas que mais pareceram uma quase rendição aos filmes da Marvel, DC e afins.

Glossário

  • BLOCKBUSTER: é uma palavra de origem inglesa que indica um filme (ou outra expressão artística) produzido de forma exímia, sendo popular para muitas pessoas e que pode obter elevado sucesso financeiro. Um blockbuster também pode ser um romance ou outra manifestação cultural que tenha um elevado nível de popularidade.
  • CCXP: é uma convenção multi-gênero de entretenimento realizada anualmente em San Diego, Califórnia, Estados Unidos. Foi fundada em 1970 como a convenção do Golden State Comic Book Convention por um grupo de locais; mais tarde, foi chamada de San Diego Comic Book Convention.
  • CGI: imagens geradas por computador, do inglês Computer-generated imagery é a aplicação do campo da computação gráfica ou, mais especificamente, computação gráfica 3D para efeitos especiais em arte, filmes, programas de televisão, comerciais e simuladores.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto:
search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close