Os traços de Van Gogh na Arte do século XXI

A arte contemporânea carrega a presença de Vincent e respinga na sociedade atual a denúncia e a necessidade do sentir.

“Eu confesso não saber a razão, mas olhar as estrelas sempre me faz sonhar”. Ouço dizer que Vincent Van Gogh, um dos grandes artistas que marcaram a arte com o pós-expressionismo, era um amante do amor. Quando olho seu retrato e analiso seu olhar, uma onda de desespero e calma me invade o peito quase que no mesmo instante. Vincent foi incompreendido por aqueles de seu tempo, sofreu muito durante sua passagem por esse solo árduo que é a Terra, mas ouso dizer que em meio a tanta angústia, Vincent sabia amar.

Hoje 2019, século XXI, a arte contemporânea ainda carrega traços e vestígios deixados e ensinados por ele. Van Gogh foi um dos primeiros artistas a atribuir sentimento desde a primeira pincelada de tinta na tela, até o suspiro de seu término, ele enchia as cedas do pincel com uma grossa camada de cor e passava no quadro escancarando seu emocional e aplicando na obra, na esperança de amenizar o que sentia. Alessandra Pereira M. Ugino (37), formada em Artes Visuais pela UEL discorre que a arte atual se compara a arte de Vincent por haver grande influencia na forma de se fazer arte.“A arte do Van Gogh surge com o modernismo ou talvez seja até precursora desse modernismo, uma arte que era feita com traços violentos, com gestos e pinceladas muito bruscas e rápidas pra passar toda a dor e sofrimento que o artista tinha, e muitas vezes a gente encontra isso nas pinturas atuais”.

Diferente da arte passada, o contemporâneo não tem mais uma regra a ser seguida na composição das obras, sejam elas telas, esculturas, instalações. A ausência do modismo e de um padrão técnico artístico trouxe à arte a possibilidade da denúncia, da expressão. Posso até estar enganada, mas Vincent foi um dos mestres que incentivaram o uso da arte como forma de crítica social e pessoal. Se analisar bem, logo no início ele faz uma denúncia à sociedade moderna quando compõe o quadro Os Comedores de Batata, em 1885.

Os Comedores de Batata, 1885 – Vincent Van Gogh
Divulgação site Obvious

“Meu quadro exalta, portanto, o trabalho manual e o alimento que eles mesmos ganharam tão honestamente. […] Por isso, não desejo que ninguém o considere belo nem bom.”Vincent Van Gogh

A arte no mercado

Apesar da valorização da arte no cenário atual e sabendo o quão presente ela está em nossas vidas, o capitalismo gerou um novo rumo na visão dos jovens com a arte e principalmente a Van Gogh e suas obras. “O fato da obra de arte virar estampa de produto, em geral não agrada os artistas porque a arte em si é vista como uma forma de conhecimento, a arte pela arte e de repente no mundo capitalista que a gente vive, elas se tornam uma forma de ampliar o consumo”, aponta Alessandra.

A forma como o público recepciona as pinturas de Vincent chama a atenção dos amantes e profissionais da arte, que se preocupam principalmente em como o jeito jovem e descolado de ingerir e partilhar conteúdo é feito quando o assunto é o nosso holandês do amarelo e azul.

A produção em peças de roupa e reprodução das obras de Vincent acabam banalizando o cunho sentimental que elas trazem e carregam na sua composição. Ana Laura Roma (19) estudante de Arquitetura e Urbanismo faz parte da geração atual e tem uma visão sobre esse consumo em massa, diferente da maioria dos jovens “Van Gogh tem uma história bem triste, e os jovens estão confundindo muito a arte com estampa de roupa. Eles rotulam os artistas com obras únicas, tanto é que os jovens só conhecem ele pela obra Noite Estrelada”.

Noite Estrelada, 1889 – Vincent Van Gogh/ Google Imagens

A indústria tem mostrado interesse nas obras de grandes artistas de séculos passados, as novas linhas de calçados, roupas e acessórios apresentam inspirações de algumas obras famosas. Contudo, é triste ver que parte do trabalho árduo do expressionista tenha se resultado num pedaço de pano comercializado em massa.

Na internet – ferramenta mais utilizada pelos jovens hoje em dia- dissemina e partilha as obras em grande escala. Capas de redes sociais, Wallpapers e capinhas de telefones celulares, Vans, jaquetas, entre outros produtos, são exemplos da apropriação de marcas que usam das obras famosas para a venda em massa de seus produtos. Basicamente a arte tem sido banalizada pelo consumo excessivo e sem conhecimento de suas origens, as pessoas usam por “estar na moda” e por se tratar de um artista famoso.

Isso comprova que até no âmbito artístico existe os prós e os contras quando se entra em contato com a sociedade. O capitalismo trouxe mais valorização à arte? Em questão de conhecimento podemos dizer que sim, mas os artistas são muito mais que apenas três obras famosas. Van Gogh deu um novo sentido à arte quando coloca seus sentimentos em tudo que faz, e isso a torna mais do que um belo quadro bonito com mais de 100 anos de existência.

Não só responsável por transmitir o que sente e o que o autor sente, a arte é caminho de liberdade, é usada na crítica social, na denúncia desesperada por um olhar mais significativo da sociedade. Aprender sobre arte te coloca para pensar, refletir, expressar e principalmente: agir.

Alessandra destaca:

“A arte está presente na nossa vida, não só no dia a dia, mas na nossa história. O homem, desde que se entendeu como gente, antes mesmo de aprender a escrever e a falar, ele desenhava nas paredes”.

A arte em contato com o público

O acesso ao conteúdo artístico tem melhorado e ampliado conforme os tempos. Exposições independentes, movimentos culturais, feiras organizadas pelo governo, proporcionam um contato maior da população com o fazer arte. Em setembro de 2019, a exposição Paisagens de Van Gogh foi instalada no Shopping Pátio Higienópolis, em São Paulo. A atração levou visitantes para uma imersão totalmente diferente do que tradicionalmente chamamos de observar as obras; contou com recursos audiovisuais e aromas que complementaram o objetivo da exposição, resultando no mergulho de cabeça em algumas obras. O evento foi propositalmente organizado para que o público estabelecesse um contato direto com as obras de Vincent. É uma forma de fazer arte e trazer arte, diferente do que estamos acostumados.

Apesar da cultura num geral ser mais democratizada que nos tempos passados, a forma como o público recebe esse contato diz muito sobre o olhar e a opinião sobre arte. Van Gogh tem sido mais visto e tem olhares do mundo inteiro para suas obras. 

Podemos finalizar essas linhas dizendo que a arte é gente, é objeto, é gesto, é sentir, é ser. Temos sua influencia por todos os cantos seja na música, na novela, na peça de teatro independente que organizaram na sua cidade, no livro que acabou de ser publicado retratando a diversidade de gente que existe no mundo a fora, nas campanhas publicitárias e, claro, nas pinturas de tela. Não só em elementos e recursos, a arte se mostra presente quando nos faz pensar, refletir, sentir e expressar e tudo isso foi respingado das criações de Van Gogh.

Ana não se esquece de mencionar:

Arte é o que nos move, Ferreira Goulart já dizia “Sem arte a vida não basta”, sem arte a gente não é ninguém. Arte é música, é cinema, é jogo, arte é pintura e arquitetura, a arte é tudo.

Vincent Van Gogh é de longe um grande artista. Ele carrega com toda a certeza o fato de que sentir é arte, e arte é sentir. Se somos feitos de emoções, então somos resultado de pinceladas fortes e suaves nesse grande quadro branco que ousamos chamar de… vida?

Por Letícia Gonçalves, aluna do 5º semestre de Jornalismo – UniToledo

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