“Todos podem ser Frida” pelas lentes de Camila Fontenele

No dia 15 de março foi realizado no Sesc Birigui a intervenção “Todos Podem Ser Frida” pela fotógrafa Camila Fontenele. Já tem alguns anos que ela apresenta este projeto pelo país e neste mês foi recebido na região.

A intervenção propõe que o participante seja caracterizado como a artista mexicana Frida Kahlo, para depois posar para foto em frente a uma tela, formando uma réplica de um dos seus quadros. A artista era famosa por seus autorretratos com cores chamativas; frequentemente é lembrada pelas sobrancelhas grossas, a “mulher da monocelha”.

A intervenção

De onde surgiu a ideia da intervenção?

“É meio abstrato, porque eu me formei em Publicidade e Propaganda, trabalhei por um bom tempo na área, já vinha flertando com a fotografia. E depois eu conheci a história da Frida e fiquei encantada, então eu pensei que queria fazer algo artístico e comecei a pesquisar homens vestidos de Frida ou como seria trabalhar a ideia de Frida na fotografia e aí foi surgindo. Foi uma coisa muito natural. Parecia que eu estava recebendo um download de informações e fui aplicando. Então foi só acontecendo. Não foi algo planejado, porque eu nem sabia onde ia dar. Não tinha um começo, meio e fim. Tanto que a primeira parte dele foi ensaio só com homens e não é desta forma que eu faço aqui, são outros tipos de propostas. Depois surgiu as intervenções e foi onde eu comecei a viajar e a fazer essas atividades em vários lugares, então rodou vários estados do Brasil, fui pra duas cidades da Europa e isso foi transbordando. A internet e o alcanço em rede também foram muito importante para conectar as pessoas, então as vezes eu recebo e-mail de pessoas que talvez eu nunca vou ver na vida, mas que de alguma forma elas se conectaram, então foi muito abstrato. Não teve um planejamento. As coisas foram só acontecendo. Por isso eu gosto de falar que o projeto tem vida própria. Eu acho que foi um encontro. Havia ali uma ideia e eu estava aberta, então a gente conseguiu fazer alguma coisa com isso. Fica meio difícil de falar de uma forma linear, porque não tem. Não existe um super planejamento.”

Quando aparece uma pessoa que não conhece muito a história da Frida para fazer a foto, alguns fazem referência à “mulher da monocelha”, o que você acha que passa na cabeça? Já te partilharam alguma coisa?

“São experiências bem distintas. Tem pessoas que ficam só nessa questão da monocelha mesmo, existem pessoas que através do projeto conheceram sobre Frida Kahlo, tem pessoas que se aprofundaram mais na história dela. Então eu acho que depende muito da abertura e do momento da pessoa também. Eu entendo que vai ter pessoas pra tudo. É o tempo de cada um, que as vezes não vai ter uma profundidade tão grande e outras vão ter. Mas eu já tive muitas experiências bem bacanas de pessoas que depois compartilharam depois o impacto que foi ter participado, o impacto que foi ter conhecido ela, seja através do projeto ou não. E já teve sim gente que se emocionou, chorou. Eu acredito também na experiência de performidade de cada um. O nome é intervenção, mas você tira um retrato, e pra mim tudo já acontece primeiro quando você assina a autorização porque está aceitando fazer isso, e depois quando você está se maquiando. Eu acho que tem um tipo de performidade ali, uma performance que só você faz. É como se você se transformasse, mas não só de forma estética. Eu vejo por esses processos que pra mim é sempre muito incrível. Por exemplo, quando eu fiz a foto do pai da Frida, foi legal ver pais que se permitiram acompanhar filhos e filhas se surpreenderem também com essa possibilidade.”

O que você acha que acontece com os homens quando eles participam?

“Eu acho que depende muito. Tem uns que vão pelo embalo, que as vezes está com filho, esposa, mas tem uns que vão e sai um resultado incrível. Por exemplo, quatro anos atrás no Sesc Araraquara a gente teve um recorde de homens que foram sozinhos fazer. E não tinha essa ideia de que só homens gays que fazem. Haviam homens diversos que estavam ali e acharam legal e decidiram fazer não se importando com o que as pessoas pensam. Então eu acho que também é a gente poder desconstruir essa masculinidade que existe de forma estrutural e de forma imaginária da gente precisa fazer x coisas e se você fizer algo fora já vão começar a te julgar ou vai acontecer x coisa. Eu posso te dar também o exemplo da experiência do meu pai. Quando eu iniciei o projeto ele falava que nunca ia fazer isso. Ele é uma pessoa aberta pra ouvir coisas, mas ele vem de uma época diferente, de uma geração diferente, com linguagem diferentes e hoje em dia ele mudou, se hoje ele estivesse aqui ele entraria na fila pra fazer. Então toda vez que ele me encontrava pra me buscar em alguma intervenção ele falava “eu quero fazer”, então existem essas possibilidades. Eu vejo como uma experiência e acho que tudo é muito pessoal mesmo. Nem sempre eles compartilham comigo, mas acho que só de fazer, seja acompanhado ou sozinho já é um passo bacana, independente do que vai acontecer depois.”

Gustavo Gonçalves Ferreira performando
Por Camila Fontenele – Intervenção “Todo Mundo Pode ser Frida/ Museu da Diversidade Sexual em São Paulo

Você acha que a data da intervenção tem a ver com março ser o mês em que se comemora o Dia da Mulher?

“A gente tem que lembrar que o Sesc é uma instituição e as instituições tem um cumprimento de uma agenda, então não é por acaso que se chama uma atividade dessa pra fazer em março. Possivelmente tem as suas ligações seja com o dia da mulher ou uma relação mais discursiva da gente poder ampliar essas questões do feminismo, da mulher e etc., mas eu acabo não me prendendo muito nisso. Eu sei, por exemplo, que março é o mês que eu mais trabalho, e eu tenho sempre uma crítica com isso também, porque a gente não tá aqui só pra cumprir uma agenda social, a gente trabalha pelo resto do ano, mas é entender também de como a gente negocia esse espaço e negocia nossa presença ou a nossa fala, nosso discurso, então pra mim estar aqui também é uma negociação de poder fazer, é uma negociação do meu trabalho, é uma negociação também com essa temática. Então como eu me porto, o que é importante pra mim, como eu faço isso transcender o mês de março. Mas o projeto costuma acontecer em qualquer época. E são coisas que a gente vai aprendendo a negociar e a fazer e também a dar uma “reclamadinha” quando precisa e hoje em dia eu já consigo fazer isso, pois não estou aqui só pra viajar. Eu pago minhas contas também nos outros meses.”

Aprendizados..

O que essa intervenção te ensinou?

“Ela ainda me ensina muitas coisas. Eu acho que é um leque e eu sou um disparador, mas quem me traz a informação são as pessoas, então eu acho que primeiro quando eu resolvi fazer eu estava tentando ensinar a mim mesma que era possível ser eu. Quando eu falo todos podem ser Frida, não é uma imposição, é uma possibilidade. Você brinca ou você performa se você quiser. Não é um “você é”, é “você pode”, e aí você que decide. Então eu acho que vem a possibilidade de eu ser eu e a possibilidade de ver que a vida da gente e as pessoas são diversas e isso é muito incrível. Faz a gente sair de uma estrutura normativa universal que ensina que a gente tem que ser tudo igual e tudo é universal e tem um grupo dominante que fala como que tem que ser o mundo. Eu me percebo uma pessoa mais sensível ás pessoas, ao mundo, ao poder admirar e ver algo a mais, eu acho que a respeitar, a ter empatia, a olhar de perto e perceber o que está ao meu redor e o que eu posso mudar ou o que eu não posso mudar, ver o que eu posso fazer um pouquinho. Então eu acho que ele é um leque de possibilidades que vai me mostrando o que é possível fazer. E é um projeto que basicamente tem muita vida própria e eu vou acompanhando. Eu gosto de me ver como alguém que está disparando e afetando as pessoas e de alguma forma sendo afetada também. Ele me mostra todas essas coisas e outras que eu ainda nem sei nomear.”

O contato do público com a intervenção

Você disse que rodou vários lugares do Brasil e chegou até na Europa. Você acha que a recepção muda muito em cada estado? Como foi com os europeus?

Eu acho que muda, mas não está relacionado a questão de país, mas de território. Se comparar do que é em Birigui, do que foi em Araraquara, do que foi em Sorocaba, em Bauru, são todas diferentes. Em Bauru foram muito mais pessoas idosas e aí tem um fluxo diferente de pessoas. Acho que depende também essa abertura. Eu acho que esse projeto acaba tendo um apelo mais social no Brasil. Talvez por essa questão de que nem todo mundo tem como acessar certos tipos de informação ou muitas vezes a pessoa me perguntar se tem que pagar pra fazer, eu acho que tem outras nuances que envolve fazer no Brasil e fazer fora do Brasil, que em outros países não vai ser tão forte. Por exemplo, eu fui pra Itália, e na Itália não tinha um apelo mais social. Eram outros tipos de coisas, mais a ideia, um lance mais estético, e também um lance muito machista, pois os homens acabam morrendo de medo de fazer, porque eles poderiam ser chamados de gays e etc. Na Inglaterra também teve um lance mais estético. Então eu acho que depende do território mesmo. Em Minas Gerais eu achei uma experiência bem bacana também, a ligação do território com a arte. Acho que tem a relação de ter uma faculdade em Ouro Preto, por exemplo, que foi um dos lugares que eu passei. Então a ligação dessas pessoas são diferentes, porque já tem uma juventude pensante ali. Eu acho que um dos lugares mais marcantes por uma questão de frequência foi o Museu da Diversidade em São Paulo, que é um museu que fica no metrô. O que me impactou foi que eu fiquei quase um mês fazendo intervenção lá todo final de semana. Chegou a ter fila de três horas. E era todo tipo de pessoa, pessoas que nunca tinham andado de metrô, pessoas que sempre andam de metrô, enfim, eu acho que foi muito impactante pela diversidade. E é um ensinamento também sobre a gente observar o chão que a gente pisa, o lugar que a gente tá, perceber as questões comportamentais. Outra diferença foi no Rio de Janeiro, onde os homens são mais fechados, muito machistas. Acho que o Brasil tem suas diferenças, tem as questões que vão ser mais abrangente, mais latente, vai criar mais relevo, mas fora também tem outros tipos de apelo. E isso é perceber como a nossa arte brasileira deveria ser vista como algo muito potente, porque é potente, e a gente não precisaria ter um carimbo de fora pra dizer o quanto a gente é potente. Mas as vezes a gente precisa, infelizmente ainda estamos nessas questões. Então é isso, acho que depende do território, depende do que procura, depende do que está aberto e tem essas nuances, essas camadas.

Por Maryla Buzati, aluna do 3º semestre de Jornalismo – UniToledo

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