É NOIZ

É demonstrando o equilíbrio entre sutileza, calmaria, insatisfação e frustração que o rapper Emicida lança seu novo álbum: “AmarElo”.

Por Verônica Martin, estudante do 5º semestre de Jornalismo no UniToledo Araçatuba

Capa do disco. Imagem de Claudia Andujar, fotografada na aldeia Yanomami Catrimani, Roraima, Brasil, 1974. Fonte: site oficial.

Depois de 4 anos sem lançar um disco de estúdio, Leandro Roque de Oliveira faz um carinho aos ouvidos de quem escuta e atenta nas faixas que compõem o novo trabalho. Em forma de homenagem aos grandes mestres da música brasileira, o cantor consegue transcender e revelar sua mensagem, de forma a permanecer –extraordinariamente – na linha tênue da quietude e celeuma de uma vida adulta.

Uma diferença perceptível e que já vem acontecendo há algum tempo, é a composição harmônica de suas músicas. Já não vemos mais o mesmo MC que rimava com tanta voracidade em cima de um beat. A poesia, a rima, a letra, ainda têm sua mesma significância, mas consegue ser tão boa quanto, representando uma fase em que o cantor se encontra.

Recalibrando o Ying-Yang o rapper une a fé às intempéries para que o luxo de ter calma alcance os demais. Aos 34 anos, Emicida traz em suas músicas uma composição única, derivada de referências de outros estilos musicais. Além das referências, Leandro traz ao longo das 11 faixas grandes nomes do mundo artístico brasileiro e parcerias com lideres religiosos que só fazem engrandecer o disco. Fernanda Montenegro. Pabllo Vittar. Majur. Mc Tha. Drik Barbosa. Zeca Pagodinho. Pastor Henrique Vieira. Fabiana Cozza. Pastoras do Rosário. Thiago Ventura. Dona Onete. Jé Santiago. Papilon. Ibeyi. Larissa Luz. Cada um agrega valor e traz na musicalidade um lirismo que faz com que o conjunto das músicas se torne uma obra.

Eis todas as faixas: “Principia”, “Ordem Natural das Coisas”, “Pequenas alegrias da vida adulta”, “ Quem Tem Um Amigo (Tem Tudo), “Paisagem”, “Cananéia, Iguape, Ilha Comprida”, “9nha”, “Eminência Parda”, “AmarElo”, “Libre” e “Ismália”.

Escutando cada uma delas, me atrevo a classificar e separar o álbum em duas categorias. “Constatações Frustrantes” e “Ânimo para o desânimo”. Uma por ainda ter na essência aquele Emicida que expõe o seu desafeto contra algo que é uma realidade, pessoas negras e periféricas enfrentando o “preconceito nosso de cada dia” e a outra, por mostrar um adulto, que vive a vida  percebe que muitas vezes é preciso um toque de amor para um rotina mais leve e celebra cada pequena alegria.

Reprodução. site oficial

Ânimo para o desânimo

O nome do álbum é uma inspiração do poema de Paulo Leminski “amar é um elo | entre o azul | e o amarelo”. A cor permeia pelas músicas transformando-se em um adjetivo positivo e bonito. Escancarado nos versos recitados pelo pastor Henrique Vieira em Principia,

“Então, será tudo em vão? Banal? Sem razão?/ Seria. Sim, seria se não fosse o amor/ O amor cuida com carinho, respira o outro, cria o elo/ No vinculo de todas as cores dizem que o amor é amarelo… Porque eu descobri o segredo que me faz humano/ Já não está mais perdido o elo/ O amor é o segredo de tudo/ E eu pinto tudo em amarelo”

– essa música, de muitas do álbum me faz arrepiar sempre e toda vez que a escuto. Além do pastor, na canção que é primeira do álbum tem a participação de Fabiana Cozza e o coral Pastoras do Rosário.

Em mais uma das suas cartas de amor, Leandro coloca em “Cananéia, Iguape e Ilha Comprida” um diálogo (quase um monólogo, se não fosse pelas gargalhadas de Teresa) com sua filha mais nova e mostra pro seu público o lado mais manso de um pai. Em entrevista pro canal da UOL no YouTube, o cantor revela que ser pai o fez perceber que o mundo é algo a mais, além da própria individualidade, “todas elas [crianças] são incríveis, isso me dá uma força tremenda pra sair pra rua e melhorar o mundo, pro mundo ficar à altura daquelas crianças.

Em “Pequenas alegrias da vida adulta” mostra como é precioso e traz aquela alegria e paz nos pequenos detalhes como “encontrar uma tapauer que a tampa ainda encaixa… triunfo pra mim/ É o azul do boletim”.

Mostrar para o público sensibilidade, que por vezes estava acostumado com um homem feroz, é sinônimo de coragem. O afeto que ronda o disco também pode se encontrar em “Quem Tem Um Amigo (Tem Tudo)”, canção que como o próprio cantor fala, é um presente ao amigo já falecido Wilson das Neves. Essa música vem em parceria com Zeca Pagodinho. É uma composição tão bem construída, que não é apenas um rap com samba de fundo ou um samba falado. A harmonização chamada pelo MC de “neosamba” é uma construção musical que mostra para o público a importância de uma amizade sincera nesse mundo globalizado, de ter alguém que “é tão 10, que junto todo o stress é muído”.

“Paisagem” vem pra mostrar uma reflexão que permite em seu refrão mostra o nirvana que desejamos atingir.

E por último, na categoria, encontra-se “Ordem Natural das Coisas”, a segunda música, na ordem discográfica, mostra os corre diário de quem precisa levantar de madrugada pro “pão nosso de cada dia”. Mas é de uma forma tão sutil e calma, que traz até, por um instante, paz, com a melodia.

Reprodução. Site oficial

Preconceito nosso de cada dia

É nessa parte que ainda encontramos os desabafos e anseios de um rapper que sabe bem suas origens, sabe tudo que já lhe foi imposto, mas não quer ser mais resistência, quer mostrar que é possível existir em primeiro lugar. “Eminência Parda” foi uma das músicas liberadas antes do disco ser laçando, conta com a participação de Dona Onete, Jé Santiago e Papilon. Nos versos mostra o rap, mais que nunca, como ferramenta de mensagem. A voz se intensifica, o beat é forte e marcante.

Em “Libre”, canção que tem a dupla Ibeyi como participação faz uma mistura de línguas e ritmos, revelando o poder negro e toda sua beleza e influência.

“9nha”, essa é precisa prestar mais atenção na composição e versos. O duo feito com Drik Barbosa, a principio pode parecer o amor entre dois jovens, dois adolescentes, maaas… “Num mundo de dar medo, ela me dava coragem, morô?/ E a sintonia monstra, neguim/ Número bom, tamanho perfeito pra mim/ As outra era pesada, B.O, flagrante/ Ela não, bem cuidada, ela era brilhante/ Uma na agulha, não perde a linha/ Prendada, ligeira, tipo as tiazinha lavadeira/ Explosiva, de cuspir fogo”… seria a relação com uma arma de fogo?

“Ismália” é a minha preferida, aquela que toca no fundo do peito. A poética, a composição, a harmonia, a participação especial… cada detalhe. Nela, Fernanda Montenegro recita o poema “Ismália” de Alphonsus de Guimarães, proporcionando a experiência de ouvi-la ainda mais importante.

E por fim, a música que leva o nome do disco, AmarElo. Com Pabllo Vittar e Majur, traz o sample de Belchior “Sujeito de Sorte”. Sem precisar explicar muito, a música faz isso por si só. “Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes/ Elas são coadjuvantes, não, melhor, figurantes, que nem devia tá aqui”…. “Achar que essas mazelas me definem, é o pior dos crimes/ É dar o troféu pro nosso algoz e fazer nóiz sumir”

Show de Lançamento

No dia 27 de novembro de 2019, o rapper fez o show de lançamento do seu disco no Theatro Municipal de São Paulo. Na grande noite de estréia o cantor programou duas sessões, uma com início às 16h e outra programada para às 21h, ambas tiveram os ingressos esgotados em 10 minutos.

Durante o show, Emicida revela a importância do trabalho feito em AmarElo e a representatividade do show de lançamento ocorrer no Theatro “Sozinho a gente não faz nada. Isso aqui é resultado do trabalho de muita gente. Essa conquista representa a anistia dos que vieram antes. Pra gente, é mágico apresentar AmarElo nesse lugar”.

Fonte das imagens: Instagram Oficial do Emicida.

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