Jogando contra o preconceito

O destaque dado pelo mídia para a Copa do Mundo de Futebol Feminino despertou a paixão pelo futebol nas mulheres e aumentou o debate sobre o preconceito de gêneros no esporte.

Por Jaqueline Lopes, aluna do 5° semestre de Jornalismo em UniToledo Araçatuba.

As mulheres estão sempre lutando para encontrar o seu espaço e transformações ao longo da história são notórias. Uma das grandes conquistas é em relação ao mercado de trabalho, pois o que antes era visto como profissão “para homens”, hoje é também atividade de mulher. Uma realidade que chegou também no esporte, principalmente no futebol. Mas essa transformação só foi possível porque uma grande batalha contra o preconceito foi travada ao longo do tempo. Cerca de 75 anos atrás, na era Vargas, o Brasil tinha por lei um futebol exclusivamente masculino, como deixa claro o decreto de 1941:

“As mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país.”

Artigo 54 do Decreto – Lei 3.199, assinado em 14 de abril de 1941.


Destaque de jornal em 1941 que reitera o preconceito contra as mulheres na época – Fonte: averdade.org (Foto: Arquivo Público/Museu do Futebol – 1941)

Mesmo o decreto chegando ao fim em 1979, as mulheres só puderam ganhar o espaço na Copa do Mundo em 1991. Mas ainda era visto com grande hostilidade. Sem investimentos, a diferenciação entre os gêneros era visível. Mas graças à resistência dessas mulheres, que não aceitavam ser impedidas de jogarem futebol, o espaço para a categoria feminina vem sendo ampliado.

Hoje o esporte feminino vem ganhando destaque na mídia e um exemplo é a edição de 2019 da Copa do Mundo Feminina. A cobertura do torneio despertou o interesse dos apaixonados e apaixonadas pelo
esporte, além de atrair patrocinadores que ajudam na divulgação, investindo em elenco para uma melhor qualidade nas disputas entre as equipes. A visibilidade nacional também aumentou o debate sobre o preconceito e a desvalorização no futebol feminino.

Times em destaque

No Brasil um dos principais times femininos em destaque é o Corinthians, o atual campeão da Libertadores da América. Com uma excelente atuação, o time alvinegro conseguiu um feito histórico, 34 vitórias consecutivas. Nunca um time masculino ou feminino conseguiu um aproveitamento tão
positivo, tornando assim o Corinthians o time mais vitorioso do mundo.

Time feminino após ganhar o título Libertadores da América em 2019 (Foto: Bruno Yeixeira/Ag.Corinthians)

Valorização na categoria feminina

Hoje em dia, o “timão” feminino treina no mesmo CT do time masculino. O parque São Jorge, que tem capacidade para 5 mil pessoas, se tornou a casa delas; uma maneira de criar a identidade própria das meninas do Corinthians. O time ainda conta com um elenco sub 17, que é comandado por Daniela Alves, ex-jogadora da seleção Brasileira, destaque ao lado de Marta e Cristiane. Cris Gambaré é boleira amadora e atual diretora do time feminino. No Corinthians recebe carta branca e tem independência para tocar o time.

“A ideia é cativar. Fomos conquistando passo a passo. Temos o ônibus próprio e parceiros que
estão felizes. Se você alimentar uma marca, que ela seja bem vista.”

Cris Gambaré para o site Uol.

Paixão de Torcedora

Thais Oliveira, 27 anos, desde de muito criança é apaixonada pelo esporte; única mulher e a primogênita de dois irmãos. A jovem aprendeu com o pai o amor pelo time da Vila Belmiro. Santista desde sempre, ela sonhava em seguir a carreira de jogadora profissional.

“Eu sempre joguei desde pequena; na adolescência entrei para o time do Comercial,
em Araçatuba. A partir daí eu sonhava em jogar em times grandes, mas ao ser
convidada para uma peneira no time do América de São José do Rio Preto, minha
mãe não aceitou
.”

Thais percebeu que se tornar profissional seria muito difícil, já que ainda existe uma enorme barreira para as mulheres no esporte. Ela desistiu da carreira, mas não de torcer pelo time do coração, e hoje ela prefere acompanhar as meninas pela televisão. “Eu amo futebol, assisto sempre que posso, acompanho o meu time, mas também acompanho os jogos femininos dos outros clubes. Fiquei feliz com a conquista das meninas do Corinthians. É claro que o preconceito ainda é grande, mas estamos no caminho”, frisou Thais.

Thais sempre acompanha os jogos do Santos, vestida com a camisa do
time (Foto: Arquivo pessoal)

Geração vitoriosa

Os grandes times brasileiros perceberam a necessidade de um trabalho mais sólido em estrutura para a modalidade feminina e vêm investindo em atletas da base, participações em torneios, o que ajuda as jogadoras a manterem o alto rendimento físico. Além de marketing para aumentar a visibilidade.

É o caso dos times que disputaram a libertadores da América 2019 no Equador. Corinthians e Ferroviária se enfrentaram em uma decisão inédita, já que nunca duas equipes do mesmo país disputaram a taça da América na história da competição. Organizada pela Conmebol, a Libertadores Feminina tem a mesma importância que a competição masculina. O desejo de levantar a taça segue pulsando nos corações sem gêneros dos apaixonados pelo esporte.

Levantar a taça: um sonho realizado

Ana Maria Barrinha, 31 anos, lateral esquerda do time vice campeão, está no elenco da Ferroviária desde julho 2017. Ela faz parte da geração vitoriosa. O time de Araraquara, interior paulista, existe desde 1950 e já fez parte da elite do campeonato Paulista, série A do campeonato Brasileiro e Copa do Brasil. É uma das equipes mais tradicionais do estado, manda seus jogos na Arena Fonte, um dos
melhores estádios do país.

Elenco do Time da Ferroviária na competição da Libertadores da
América 2019 (Foto: Internet)

Barrinha, como é conhecida, joga desde criança. Apaixonada por futebol, jogava na rua, na escola, em qualquer lugar. Sempre gostou muito de esporte, mas o futebol sempre foi o que a cativava mais. Ela é uma das poucas que conseguiu seguir em frente, em busca da realização do sonho de se tornar profissional. Hoje ela mostra orgulhosa os troféus e medalhas que conquistou ao longo da carreira.

Ana Barrinha, lateral esquerda do time Ferroviária, com o troféu do título de Campeãs Brasileiras Femininas 2019 (Foto: arquivo pessoal)

Tendência do esporte

Com novos investimentos, visibilidade, patrocínios e profissionalização, a ideia é o esporte expandir. Uma das grandes barreiras na categoria feminina ainda é a falta de investimento nos times, o que resultaria em melhores salários e mais dignidade para elas, desabafou a atleta.

“Queremos respeito com nossa modalidade. Não queremos igualar salários, mas queremos poder viver dignamente exercendo a mesma modalidade que eles. Os salários podem ser melhorados, as premiações das competições podem ser melhoradas. Sinto-me confiante de que de agora pra frente a modalidade só irá crescer. Não tem mais volta. O feminino está aí, pra quem goste ou não.”

Ana Barrinha


A crescente do esporte segue firme e a CBF confirma um calendários de jogos para a modalidade feminina em 2020. A temporada contemplará 2 categorias da fase adulta e 3 de base. O campeonato Brasileiro A1 contará com 16 clubes na disputa, sendo 9 clubes fortes no campeonato masculino, como Flamengo, Internacional, São Paulo, entre outros, o que irá fortalecer o nível da competição.
O presidente Rogério Caboclo afirmou em entrevista ao site da instituição que o futebol feminino é uma prioridade. A CBF está focada em fomentar investimentos em escala inédita para acelerar o crescimento da categoria feminina em todo o país.

Imagem em destaque na capa: 1News Brasil

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