O papel do psicólogo na atualidade

Por Tainara Borborema, estudante do 3º semestre de Jornalismo no UniToledo Araçatuba

Em virtude da pandemia do covid-19, a quarentena foi adotada como forma preventiva, o que gerou uma grande ruptura na rotina na população e diversas preocupações. Se por um lado, ficar em casa é de extrema necessidade, por outro, há muitas pessoas com crises emocionais por conta disso.

Lais Messias em seu consultório – Fonte: Acervo Pessoal

A psicóloga Lais Messias, percebendo a necessidade de apoio psicológico neste momento, para os que não possuem condição financeira, decidiu criar o projeto ‘Seja Luz’.  Por meio de um perfil na rede social Instagram, foram reunidos psicólogos que além de divulgarem conteúdos e dicas sobre saúde mental, também estão realizando gratuitamente atendimentos online.

Lais Messias, de 33 anos, é formada em Psicologia pela Fundação Educacional Araçatuba (FAC/FEA), com especialização em Psicodrama pelo Instituto Riopretense de Psicodrama, além de ser palestrante no projeto Café com Pimenta. Sobre o tema saúde mental, ela irá contar um pouco mais sobre o projeto ‘Seja Luz’ e falar sobre a importância da terapia nos dias atuais.

Como surgiu a ideia do projeto?

“A ideia surgiu no começo de março, quando o Brasil começou a enfrentar a pandemia e os casos começaram a aparecer, então eu pensei “Como psicóloga, como eu posso ajudar essas pessoas?”, não só meus pacientes, até porque eles vinham trazendo uma demanda em relação a isso, mas principalmente, pessoas que não tem condições de fazer investimento nesse momento. Tanto porque, as pessoas impactadas pela pandemia, perderam o emprego, têm sofrido uma diminuição na carga horária do trabalho e como consequência a diminuição do salário. Então a proposta era essa, oferecer acolhimento psicológico voluntário para pessoas que não podem investir em terapia agora

Projeto “Seja Luz”, idealizado pela psicóloga Lais Messias – Fonte: Instagram

Ao todo, são quantos profissionais realizando o atendimento? Como ocorreu o processo para que esses profissionais entrassem nessa ação solidária?

“Como o projeto não tinha nome nessa época, eu só montei o projeto, sem nome e sem nada. Eu pensei “Não vou fazer isso sozinha, vou convidar os psicólogos que conheço para se juntar a mim”. Inicialmente, uns 15 psicólogos aderiram, então eu precisei estruturar isso através de um protocolo de atendimento para auxiliar esses profissionais, até porque têm as normas do CRP (Conselho Regional de Psicologia). Eu organizei todas as informações e conteúdos em relação a atendimento psicológico de emergência e pandemia. Depois que estruturei tudo, mais psicólogos ficaram sabendo e entraram em contato, e hoje estamos com 46 psicólogos.

Qual o significado do nome ‘Seja luz’?

A gente recebia um feedback muito gostoso das pessoas que estavam sendo atendidas, sabe? Do quanto nós as ajudamos, que se sentiam mais aliviadas, mais organizadas emocionalmente. Então pensando que a pandemia é algo novo, que tem um caos instaurado e está todo mundo no escuro, sem saber como fazer, como agir, sem saber o dia de amanhã e toda essa imprevisibilidade, pensei numa analogia: ‘Seja Luz’. Porque em meio a esse caos todo, a gente pode encontrar esperança, uma luz ao fim do túnel, que é voltar para si, cuidar de si. Então nós, enquanto psicólogos, podemos ser luz na vida de tantas pessoas

A pandemia que estamos vivenciando desencadeou mudanças em todos os setores da sociedade, o que afetou bruscamente a rotina das pessoas. De que forma essas mudanças podem trazer um impacto negativo na saúde emocional dos indivíduos?

O impacto que a pandemia tem trazido na vida das pessoas é muita ansiedade por conta da imprevisibilidade e das pessoas ficarem pensando no amanhã e como elas precisam se preparar para esse amanhã. Sintomas depressivos, desesperança, falta de motivação, falta de vontade, as pessoas querem ficar deitadas o dia todo, dormem muito… Por quê? Elas estão sem energia exatamente porque perderam a convivência social, esse contato humano… As pessoas têm sentido falta disso. E principalmente a privação, enquanto seres humanos, quando alguém nos fala que não se pode fazer isso, que não se deve fazer isso, entendeu? Liga o estado de alerta! E aí, a gente acaba entrando neste estado de privação, “Estou privado do meu ir e vir, e da minha liberdade”. Então isso confunde muito a gente e traz sentimentos ruins.”

Como a terapia pode ajudar as pessoas a lidarem com o estresse, ansiedade e os demais transtornos emocionais?

A terapia pode ajudar, porque através da fala a gente consegue se organizar e a partir do acolhimento psicológico, quando alguém se propõe a nos ouvir, acontece algo muito mágico, que eu falo na terapia, que é essa escuta sem julgamento, essa escuta ativa, onde o indivíduo nos fala e ele é ouvido. Então isso, é como se fosse um abraço, sabe? É como se fosse um acolhimento, um quentinho no coração. A partir disso, a gente oferece mecanismos e estratégias para que o individuo se organize melhor emocionalmente e consiga lidar com as dificuldades do dia a dia. Então a gente passa a técnica, exercícios de respiração, técnica para que as pessoas consigam se acalmar e principalmente a identificar o que está sentindo e o que fazer com o que está sentindo.”

Além da terapia, que outras medidas a população pode adotar em sua rotina para manter e cuidar da saúde mental?

Eu sempre falo que a meditação é um ótimo aliado, o exercício físico também é um ótimo aliado e a vida social. Como agora não podemos nos encontrar pessoalmente, fazer chamada de vídeo com as pessoas que a gente ama e gosta é muito bom.  Podemos incluir a leitura, porque a leitura é uma forma de aquietar o nosso cérebro e focar numa história, num conto, numa literatura romântica, então isso é muito interessante, ajuda muito a gente olhar para nós e proporcionar mais prazer. Um corpo que consegue sentir mais prazer em diversas áreas da vida, consegue fluir melhor, ele não entra em um nível de estresse muito alto. Inclusive, além de tudo isso, também é recomendado uma atividade manual, cozinhar, bordar, até arrumar armários e organizar a casa, coisas manuais que coloquem nossa energia para fora. E também, estudar. “

Como funciona o procedimento para que o paciente seja atendido?

O paciente pode entrar em contato com a gente pelo Instagram, que é @projetosejaluz.ata, lá nos destaques, têm todos os profissionais cadastrados, ele pode olhar os profissionais disponíveis e escolher um. Ele entra em contato direto com o psicólogo, o psicólogo irá responder, orientar e marcar a primeira sessão de atendimento. O projeto oferece de uma a quatro sessões de atendimento, então não é um processo terapêutico.”

Apesar do momento específico que todos nós estamos passando diante da pandemia, ainda sim, num contexto atual, lidamos com uma rotina ágil e conturbada, repleta de obrigações e deveres, uma sociedade liquida, de acordo com Zygmunt Bauman. Como você, profissional da área da saúde mental, enxerga o papel do psicólogo na contemporaneidade?

Pensando nas relações e na sociedade líquida, eu falo que é um desafio para nós psicólogos, porque as coisas acontecem muito rápido, as relações estão muito superficiais. E a proposta da psicologia dentro da contemporaneidade é levar o individuo a refletir sobre seus vínculos, a dar um novo significado para esses vínculos, para que ele consiga ter saúde emocional e relacional. Então nosso papel dentro disso tudo, é levar o individuo a ter mais consciência, mais presença e mais organização emocional e social para que ele possa ter mais qualidade de vida, porque eu falo que o foco é ter qualidade de vida. “

Qual o principal motivo que te levou a escolher o curso de Psicologia?

“O principal motivo foi esta questão de querer contribuir para a qualidade de vida do outro. Do quanto eu posso me oferecer, me doar enquanto psicóloga clínica, palestrante e utilizar as redes sociais como mais um pilar dentro da sociedade para que a pessoa consiga ter mais qualidade de vida. Então, essa foi minha motivação, poder ajudar as pessoas a serem mais felizes, mais organizadas, mais centradas e mais donas de si.”

Como era sua rotina antes da pandemia e o que mudou?

“A minha rotina mudou bastante, porque eu sou muito ativa. Inclusive eu atendo na cidade de Araçatuba-SP e Pereira Barretos-SP, então eu viajo todas as semanas, na verdade, viajava. Eu ia para Pereira Barretos uma vez na semana. Com a pandemia eu tive que parar de viajar, antes viajava mais de 1000 km por mês, além das minhas atividades diárias, de dar palestras, fazer roda de conversa e atendimento clínico. Hoje eu atendo na minha casa, no meu escritório e faço atendimento online por vídeo chamada.

Eu tenho feito tudo dessa forma, conversar com as minhas amigas, fazer as reuniões dos meus projetos Café com Pimenta e Seja Luz e de outras coisas que eu participo também. Eu tive até que fazer um cronograma pra me organizar, porque no começo eu me perdi um pouco nessa coisa de estar em casa e ter um escritório e atender. Mas hoje, depois de cinco semanas em casa, eu tô bem, bem adaptada, consigo ter uma rotina, não saio de casa para praticamente nada. Mas eu também desço no condomínio, faço minha caminhada, faço minha yoga dentro de casa, tenho meus momentos de descanso, tenho os meus atendimentos que são bastante por dia, é bem intenso. Mas com certeza, não vejo a hora de tudo isso passar, voltar a minha rotina e voltar o contato social principalmente.”

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