ATAMOR: uma aula de empatia e altruísmo

Um projeto que surgiu da gratidão, atrai os olhares sensíveis e transforma os envolvidos.

Por Maryla Buzati, aluna do 5º semestre de Jornalismo

Solidariedade, compaixão, amor, atenção, persistência, fé. Do que precisa uma pessoa que recebe um diagnóstico de uma doença sem cura? Como é a vida dos que estão em tratamento de câncer? Como uma família lida com essa situação? E como ajudar a amenizar o sofrimento deles? É o que passou pela mente de Ícaro Morales, 24, quando vivenciou o sofrimento dentro de casa.

Há 6 anos a mãe de Ícaro, Cíntia, foi diagnosticada com câncer de mama. “Nós ficamos sem chão, porque nunca tivemos um câncer na família e automaticamente a gente pensa em morte. Sempre que a gente pensa em câncer a gente já pensa em morte. Então eu fiquei com muito medo de perder a minha mãe, que é a pessoa mais especial que eu tenho na minha vida”, contou Ícaro. Tudo mudou em uma missa na Paróquia Santana em Araçatuba, celebrada por um Padre da Comunidade Canção Nova de Cachoeira Paulista, SP. O Padre revelou que ali havia uma mulher chamada Cíntia, que enfrentava um câncer há mais de um ano, sentia medo de morrer e, precisava das orações e apoio de outras pessoas. Ele avisou para ela se manter firme na fé, porque Deus faria por meio da dor dela, um remédio para milhares de pessoas. Um mês depois o nódulo em seu seio regrediu 100% e ela estava curada. Não precisou nem retirar a mama, o que é raríssimo.

Ícaro e a mãe / Arquivo pessoal

A origem

Ícaro ficou marcado com essa história. “Eu fiquei extremamente comovido e depois de um tempo dessa cura eu me senti na obrigação de agradecer a Deus e aos filhos dele por meio de algum ato beneficente. Eu era estagiário de Direito, hoje sou advogado, mas na época comecei a usar o meu salário de 700 reais e converti em pães, sucos e mantimentos alimentares para estar doando aos pacientes em tratamento de câncer na Santa Casa de Araçatuba. Comecei a ir sozinho e pelas redes sociais as pessoas começaram a querer interagir, a participar, a doar e a ir junto comigo. Então foi assim que aconteceu o Atamor. Não foi planejado montar um grupo. Foi uma sucessão de fatos que ocasionaram num grupo que posteriormente se institucionalizaria, teria CNPJ, teria conta no banco e hoje estaria fazendo o que estamos fazendo.”

O grupo ajuda os pacientes do SUS. A sede fica dentro do CTO (Centro de Tratamento Oncológico), onde estão pacientes de 46 cidades da região em tratamento de câncer. “Escolhemos o SUS porque são os pacientes mais vulneráveis, os que mais precisam de amor, de carinho e de suporte material para os que realmente não tem condições. Só que isso não afasta o Atamor dos pacientes que tem plano de saúde. Se um paciente nos procura a gente ajuda, mas é que o nosso trabalho do dia a dia é mais direcionado aos pacientes do SUS,” esclareceu.

Grupo de voluntários do Atamor no Natal de 2019 / Arquivo pessoal

O Atamor é dividido em várias atividades internas. Servem alimentos aos pacientes por meio de doações baseadas em um cardápio que postam nas redes sociais, onde as pessoas fazem a doação em pontos de entrega que são clínicas parceiras. Os lanches são entregues nas quintas-feiras a tarde e sextas de manhã, que é o dia de atendimento na pediatria. Esses momentos são realizados com música e os personagens para dar um entretenimento.

Os cabelos que eles recebem são enviados para uma fábrica em Rio Preto que faz as perucas. Outra ajuda é a doação de prótese de mama feita de polipropileno para as mulheres mastectomizadas. Tudo o que foi arrecadado é destinado a pacientes de todo o interior de São Paulo. “A gente dá toda a orientação que elas (as mulheres) precisam, a gente tinha as oficinas de maquiagem, que não temos mais por causa do coronavírus,” contou Patrícia Daniele Marques Alves, 37, voluntária que entrou no sexto mês do projeto. E foi dela que partiu a ideia de doar os enchimentos, após a sua mãe receber um em Jales depois de ter feito a mastectomia.

O grupo tem uma visão especial para as mulheres. Ícaro ressaltou que se importa em mexer no emocional e no espiritual das pacientes: “eu parto daquele princípio de que nem só de pão viverás o homem. Para muitos pacientes, principalmente as mulheres, o maior problema não é o câncer. Ás vezes o problema é de uma mãe que está em tratamento e está pensando no filho que está preso, as vezes é o abandono do marido. Porque 40% das mulheres que desenvolvem um câncer de mama são abandonadas pelos maridos. Elas se sentem abandonadas e a rejeição é um sentimento muito triste. Então o Atamor acaba sendo uma família para elas, o suporte, uma bengala emocional para que elas estejam caminhando no tratamento com um pouco mais de força e amor.”

“A gente doa os travesseirinhos em forma de coração para que as mulheres possam repousar ali a região cirúrgica da axila, que é onde tem as primeiras metástases, pois a pessoa tem que fazer a remoção da mama e esvaziamento da axila, então esse travesseirinho pós-cirúrgico ajuda a repousar. A gente sempre entrega lenços, turbantes, muitas vezes um batom, um brinco, para tenta fazer um momento dela se sentir bonita, sabe?” completou Patrícia. A voluntária também contou como surgiu a ideia de confeccionar perucas de lã para as crianças, que os próprios membros do grupo foram aprendendo a fazer “A gente tem essa sensibilidade de fazer um pouquinho a mais, que são ideias que vão surgindo. Uma vez estávamos finalizando uma reunião com uma pessoa que levou a ideia das perucas de lã. No mesmo momento entrou na sala uma menininha carequinha, pois ela já estava finalizando o tratamento, que pegou a peruca, colocou na cabeça e saiu andando pelo hospital. Então ali foi uma confirmação de que a gente tinha que fazer o projeto com as crianças também. Porque não é pra suprir a falta do cabelo. A peruca de princesa é para suprir aquela necessidade lúdica da criança. Porque as vezes elas não vão para a escola mais, por conta do tratamento. E também esses personagens que o Ícaro leva são como momentos de alegria para elas.”

Patrícia vestida de palhaço em visita a pacientes / Arquivo pessoal

Atamor Delivery

Durante a pandemia a associação teve que parar o trabalho dentro do hospital para evitar os riscos de contaminação. Diante disto, Ícaro decidiu criar o Atamor Delivery. “A gente entende que por mais que a pandemia nos exija cuidados, o câncer não entrou em quarentena. A doença não parou e as necessidades continuam. Então o Atamor tentou se moldar, se adaptar a essa nova realidade. Nós não estamos mais frequentando o hospital por segurança da nossa saúde e da saúde dos pacientes, mas nós ainda estamos dando todo o suporte necessário para levar mais dignidade à vida deles. Os pacientes tem nosso contato. Lá dentro do hospital tem os banners, mas o que eu acho mais importante é o boca a boca que ocorre dentro da Santa Casa. Então eles entram em contato conosco e nós levamos o que ele precisa até a casa dele, seja onde for. Por exemplo, nessa quarentena eu levei prótese em Andradina, levei peruca para Rubiácea, levei um monte de coisas para um monte de cidades da região.”

Um dos casos de delivery em Araçatuba foi para a Maria Eduarda de Rossi Lima, 10 anos, que recebeu a peruca de lã da Princesa Aurora. Ela tem Linfoma Não Hodgkin, que de acordo com o Inca é um tipo de câncer que tem origem nas células do sistema linfático e que se espalha de maneira não ordenada. O sistema linfático faz parte do sistema imunológico, que ajuda o corpo a combater doenças. Como o tecido linfático é encontrado em todo o corpo, o linfoma pode começar em qualquer lugar.

A mãe, Camila Daiana de Rossi, 31 anos, relatou que “ela (a filha) ficou encantada com a Princesa, a Malévola e com o Ícaro, o idealizador do projeto, vestido de Príncipe. Sem esquecer a limusine, trazendo encantamento para a criança e a família toda.” Camila compartilhou que a filha fez tratamento de 2 anos e agora já está há 8 meses em remissão, mas que na época de frequência à Santa Casa, o Atamor “estava sempre levando alegria no CTO” com “momentos de alívio durante o tratamento que não é fácil nem para a criança com todos os procedimentos, nem para a família.”

Maria Eduarda com as voluntárias vestidas de Malévola e Princesa Aurora / Arquivo pessoal

Para acompanhar mais sobre o trabalho do Atamor, siga nas redes sociais:

Facebook: ATAmorVoluntarios

Instagram: @atamor.aracatuba

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