Tornando-se o melhor amigo do melhor amigo do homem

O crescimento do número de abandonos e maus-tratos de animais exige a mudança de atitude da sociedade.

Por Lucas dos Santos Francisco, 5º semestre de Jornalismo.

Certamente você já deve ter ouvido em algum lugar que o animal é o melhor amigo do homem. Realmente é compreensível que de fato seja visto que os bichos possuem bastante personalidade e muitas qualidades, conquistando facilmente a maioria das pessoas com demonstrações de carinho, amor e fidelidade. Entretanto, até que ponto o homem também assume o posto de melhor amigo dos animais?

Abandono e maus-tratos

Em 2010, a Fundação Affinity realizou na Espanha uma pesquisa sobre animais abandonados, adotados e perdidos. O levantamento revela que naquele ano foram recolhidos, aproximadamente, 109 mil cachorros e 36 mil gatos. Mediante os dados, nota-se que o abandono e maus-tratos de animais domésticos é um problema que tem se tornado cada vez mais recorrente em nossa sociedade.

Se isso já não fosse o bastante, com a chegada da pandemia da Covid-19, o número de abandono desses animais cresceu. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, as instituições relatam um aumento de até seis vezes mais no número de abandonos no Brasil, porém, não existem dados oficiais no país sobre esse tema. Entretanto, a Associação Protetora dos Animais (ProAnima) do Distrito Federal indicou que houve um aumento de 60% de pessoas que querem se desfazer de seus animais. Além disso, o Garra Animal, que cuida de animais abandonados no Rio de Janeiro, evidencia que o número de denúncias diárias cresceu de 170 para mais de 700. Esses dados nos mostram o quanto os animais necessitam de ajuda.

Nesse contexto, Cristina Munhoz, presidente da Associação Protetora dos Animais de Araçatuba (APA), nos concedeu uma entrevista, demonstrando a sua experiência em torno do tema. Ela conta um pouco da sua rotina e como é a sua luta como protetora dos animais.

“Ser protetora dos animais exige um certo esforço. Eu acordo pela manhã e faço as coisas de casa, que por sinal também é cheia de animais. Depois do horário de almoço vou para a chácara aonde ficam os animais. Fico cuidando deles nesse tempo, mas antes disso já tem uma pessoa que fica lá com eles. Em questão de denúncias, vou no período da manhã e da tarde, na medida que surgem.

O esforço que digo se dá por nos depararmos com algumas situações que nos faz discordar, seja pela maneira a qual vemos o estado que o animal se encontra, fazendo com que tenhamos que entrar em ação. Às vezes é complicado, porque não conseguimos assimilar que uma pessoa é capaz de cometer tais coisas com o animal.

Porém, é uma luta que eu encaro há mais de 20 anos, sempre protegendo e lutando por eles, buscando uma melhora. Nesse sentido, há uma facilidade, mas por atrás disso há muito esforço. Atualmente tenho muitos animais sob proteção e cuidados. Querendo ou não, é um esforço grande para manter tudo isso. Eu resumo isso como uma vida de amor e luta pelos animais.

Cristina Munhoz, presidente da Associação Protetora dos Animais de Araçatuba (APA). / Fonte: Arquivo Pessoal

Cristina ainda cita a frequência de denúncias de abandono e maus-tratos que recebe diariamente. Além disso, ela também destaca a influência que a pandemia da Covid-19 trouxe para essa realidade.

“Denúncias de abandono recebo diariamente, mas é definitivamente impossível conseguir resgatar todos animais, pois além de ter de buscar o animal, para introduzi-lo no abrigo é necessário que ele esteja castrado, vacinado e tenha passado pela vermifugação. Mas as denúncias em si são imensas. Todo dia recebo de 5 a 10, seja no Facebook ou WhatsApp. Já denúncias de maus-tratos, recebo uma média de 2 a 3. A pandemia do coronavírus, por exemplo, fez com que muitas pessoas começassem a pedir ajuda, seja para alimentar seus animais ou para levá-los ao veterinário. Sem contar que o número de animais abandonados aumentou devido muitas pessoas estarem migrando para apartamentos e também por se mudarem. Isso é um grande problema. Já recebi uma denúncia de uma mulher que iria voltar para a cidade natal, por exemplo, e que por isso queria doar os seus dois cachorros. Também houve a de um senhor que iria para São Paulo e simplesmente abandonou o cachorro. Mas uma mulher ficou com o cachorro e está tentando doar.

A esperança

Outro dado que deve ser destacado no estudo da Fundação Affinity de 2010, é com relação aos motivos dos abandonos. De acordo com a pesquisa, as principais causas para o abandono de cachorros e gatos foram: ninhadas inesperadas (14%), mudança de casa (13,7%) e fatores econômicos (13,2%).

Em meio a esta realidade lamentável, que para muitos pode ser considerada como ‘perdida’, algumas pessoas se propõem em fazer a diferença através da adoção, por exemplo. Daiane Haberman, moradora de Araçatuba, que já havia feito adoções várias vezes, recentemente adotou duas cachorras que foram abandonadas. Ligada aos animais desde a sua infância, ela destaca a importância dos bichos em sua vida.

As duas cachorras que foram adotadas por Daiane Haberman. / Fonte: Arquivo Pessoal

“Os animais me fazem muito bem! Sou apaixonada por cada um deles. Desde criança sempre tive, pois meu pai criava cachorros grandes de raça para cuidar dos sítios e das chácaras que a minha família tinha. Sem contar que houve um tempo atrás que eu sempre pegava os cachorros que jogavam na porta de casa. Porém, pelo fato de na época eu morar em apartamento, tive de renunciá-los e adotei 2 gatos de rua. Infelizmente um morreu atropelado, mas o outro ainda tenho. E agora que nos mudamos para uma casa, adotei duas cachorras de um abrigo.

Daiane já adotou animais abandonados diversas vezes, como já mensurado. Ela ressalta outra experiência de adoção pela qual já passou, e ainda revela o que pensa sobre adotar mais animais futuramente.

Atualmente tenho duas cachorras e um gato, mas nesse período também adotei duas gatas para minha mãe e minha irmã cuidar. Pegamos de um barraco do sem-terra, aonde tinha 20 gatos e a mulher que cuida não estava tendo condições de ficar com todos. Porém eu penso sim em adotar mais animais futuramente, mas só será possível se eu arrumar um emprego que pague melhor do que o atual. As cachorras comem dois sacos de ração por mês, então leva-se um certo gasto, além de também levar em consideração as vacinas, remédios de carrapatos e o veterinário, por exemplo.

Por fim, ela ainda deixa a sua versão sobre o ato de adoção, além de impulsionar aqueles que pensam em adotar algum animal abandonado.

“Para aqueles que têm a ideia de adotar um animal, recomendo que façam a adoção. Detesto a ideia da compra de um animal, sendo que tem vários abandonados por aí precisando de um lar.

A minha dica é que se forem adotar e não querem ter um certo ‘trabalho’, que adotem um que já é criado. Uma vez tentei adotar um filhote, mas ele ficou chorando a semana inteira durante a noite toda. Com cachorro que já é grande não se tem esse problema. Sem contar que os animais de abrigo são sociáveis e amorosos, já que vivem em grupo. Desse jeito sabem conviver com outros animais. Não tive problema nenhum com os que adotei.

Daiane Haberman com o seu gato, que também foi adotado. / Fonte: Arquivo Pessoal

A paixão pelos animais

Além do ato da adoção, existem outras maneiras de se ajudar o melhor amigo do homem. Essa ajuda provém principalmente de pessoas que possuem paixão pelo mundo animal. No caso de Ana Carolina Castro, esse tipo de afeto é imenso, ainda mais quando se trata de cachorros. Também moradora de Araçatuba, ela relata a origem de todo esse seu sentimento por cachorros e o que representa para si.

“A paixão por cachorros desde sempre foi uma coisa bem nítida em mim. Quem me conhece sabe o quanto sou fissurada e apaixonada nisso. Tudo começou nos meus 6 anos de idade, quando ganhei a minha primeira cachorrinha. Eu estava no salão de cabeleireira com a minha mãe e lá me deparei com vários filhotinhos, então coloquei na minha cabeça que queria ter uma e fiquei falando isso para os meus pais. Certo dia eu estava na casa da minha amiga, tomando banho de piscina, até que os meus pais deixaram eu ter uma. Fiquei tão eufórica com a notícia que saí correndo de biquíni na rua. Quando peguei no colo, fiquei abraçando e beijando ela de tanta felicidade. Foi um sentimento maravilhoso, nunca imaginei que fosse gostar tanto de cachorro assim. Toda vez que vejo algum na rua, já estou fazendo carinho. Sabe o que é poder chegar em casa e ele estar te esperando todo alegre? É uma sensação maravilhosa, traz alegria para a sua vida.

Não é apenas sobre ter um animal de estimação, mas sim fazer dele como um verdadeiro membro da família.

Ana Carolina ajuda os animais de várias formas, em meio essa realidade de maus-tratos e abandonos. E apesar de ainda não ter adotado um animal abandona, é uma ideia que está em seus planos.

“Eu ajudo a causa tanto pela internet quanto pessoalmente. Sempre que posso ajudo de alguma forma, seja financeiramente, com veterinário, dando ração, água, medicamentos e coisas do tipo. Eu também costumava fazer rifas para os animais. Assim eu pedia brinde para as pessoas, sempre falando da causa e da finalidade. E então a rifa era revertida na castração do animal de rua. É muito legal poder fazer isso. Cada um ajuda como pode. Porém, nunca adotei um animal de rua. A minha primeira cachorra eu ganhei dos meus pais e a segunda eu peguei de uma cria de filhotes de uma cachorra da minha avó. Mas, tenho muita vontade de adotar.

Cachorrinha de Ana Carolina Castro. / Fonte: Arquivo Pessoal

Mudança de realidade

Mediante um cenário com tantas ocorrências de abandonos e maus-tratos de animais, é mais do que necessário que essa realidade seja mudada. Apesar de nunca ter presenciado cena de maus-tratos, Ana Carolina ressalta que as pessoas precisam ter iniciativas para que a mudança seja possível.

“Já vi por meio da internet, mas felizmente nunca presenciei cena de maus-tratos, de alguém batendo no cachorro ou menosprezando. Mas caso presenciasse, com certeza eu faria alguma coisa. Entretanto, de fato falta consciência nas pessoas.

Falta um olhar mais humanitário para os animais. Muitas pessoas falam que querem ajudar e que sentem dó do animal, mas acabam não ajudando. Então faltam mais atitudes do que palavras, porque ajudar todos querem, mas falta a questão da prática.”

Para a presidente da APA, Cristina Munhoz, a consciência e a responsabilidade são pontos que estão em falta nessa realidade, além de explicitar de onde vem a sua inspiração em toda essa luta.

“Em primeiro lugar, sou uma pessoa muito otimista. Em segundo, é o amor que sinto pelos animais. Sinto vontade de ajudar e compadeço pelo sofrimento que eles passam. Esse último fator me incomoda muito, fazendo com que eu sempre queira fazer mais por eles, apesar de eu ser limitada. Porém, o que posso fazer, pode ter a certeza de que eu faço.

Mas realmente falta responsabilidade e consciência nas pessoas. É importante que não tratem os animais como objeto, pois sinto que as pessoas acabam não criando um vínculo de amor com o animal, ou seja, quando não as convêm mais, acabam abandonando.

Uma parte desses abandonos se dão pela falta de políticas públicas para os animais, como a castração, vacinas e clínicas veterinárias gratuitas para atendimento. Então quando eles ficam doentes ou quando geram filhotes indesejados, acabam sendo abandonados. Vamos torcer para que isso melhore cada vez mais e que os animais possam ser tratados como eles merecem: com amor, carinho e respeito, pois são criações divinas como a gente.

Vale ressaltar que a punição para quem praticar o ato de maus-tratos aos animais aumentou, pois foi sancionada no dia 29 de setembro de 2020 a Lei 1.095/2019. A pena que antes previa de 3 meses a um ano de reclusão, além de multa, agora será punida com pena de reclusão de dois a cinco anos, além de multa e a proibição de guarda.

Imagem em destaque: https://www.ecycle.com.br/4217-adocao-de-animais.html

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