Pele à mostra: mulheres negras que superaram o racismo

Como se sabe as mulheres não possuem muita voz dentro da sociedade. Por mais que já tenham conquistado muitas coisas nessas últimas décadas, ainda estão buscando conquistar cada vez mais seu espaço.

Por: Nathyele Guimarães, 5º semestre de Jornalismo – Unitoledo

Para as mulheres negras as dificuldades são maiores em relação às mulheres brancas em diversas áreas.

De acordo com IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada), as desigualdades raciais dentro do ambiente profissional entre mulheres negras e brancas está presente tanto na busca por emprego quanto nas competições por espaços de poder, como cargo de chefia, por exemplo.

Ser negro em um país preconceituoso como o Brasil não é fácil e ser mulher torna tudo mais difícil, pois elas passam pelo racismo e pelo machismo diariamente.

Nessa reportagem será contada a história de algumas jovens mulheres de 17 a 29 anos e como cada uma lida diariamente com os acontecimentos diários.

“Olha sua cor”

Thais Vieira, jornalista de 22 anos, diz que seu primeiro contato com o racismo foi muito cedo. “Quando eu tinha 9 anos, uma colega de classe (branca) me olhou com desprezo e afirmou ‘olha sua cor’, como se dissesse ‘se coloque no seu lugar’. No momento, eu sabia que aquilo não estava certo, mas não consegui entender o problema dela com a cor da minha pele e me deixou muito chocada.”

A cor da pele também influencia nos relacionamentos para a jornalista. Se trata de algo no termo de 8 ou 80. “Ou eu sou rejeitada de cara e não ‘faço o tipo’ ou sou hiperssexualizada e sofro abordagens fortes com conversas de teor sexual, logo nos primeiros contatos.”

Thais Vieira, 22 anos.          
Fonte: arquivos pessoais     

Thais diz que cresceu ouvindo piadas sobre seu cabelo e por não ter muitas referências acabou se deixando influenciar pelos padrões, que eram impostos a ela. “Alisei o cabelo aos 10 anos achando que me encaixaria nos padrões, não gostava da minha aparência porque não me via nas revistas tens que comprava. Padrões estéticos aliados ao racismo podem ser extremamente cruéis”.

Cabelos…

A história de Jéssica Fernanda Gonçalves, servidora pública de 29 anos, também traz relatos de racismo na infância e adolescência. Ela diz que enquanto mulher adulta não se lembrava de nenhuma situação que a marcou nesse aspecto. “Quando criança e adolescente senti muito descriminação principalmente em relação ao meu cabelo, tinha vários apelidos e “brincadeiras” que me abalavam muito.”

Em relação aos homens que Jessica se relaciona na vida a frases que mais costuma ouvir deles é “essa neguinha é brava” ou qualquer coisa nesse aspecto, mas sempre em tom de brincadeira”.

Jéssica Fernanda, 29 anos.
Fonte: arquivos pessoais

Da cor do pecado

Tauany Mayara, estudante de 17 anos, relatou que sofreu racismo em uma loja recentemente. “Neste ano de 2020, no mês de agosto, estava tentando comprar roupas, porém ao chegar nas lojas, as atendentes faziam pouco caso, e dava para perceber que era devido à cor de pele, por causa que tinha outros clientes e o atendimento para os mesmos era exemplar.”

Tauany Mayara,17 anos.
Fonte: arquivos pessoais

Sobre relacionamentos, ela diz que sempre escuta coisas como “você é da cor do pecado” e para a estudante essa é uma frase que ela não gosta de ouvir. “Porque faz uma referência de que a minha cor seria ruim por isso a denominação pecado, apesar de a intenção dos homens seja elogiar”.

Ancestralidade e liberdade

Maria Eduarda Oliveira Freitas, operadora de telemarketing de 19 anos, conta que quando criança foi acusada de ter roubado um brinquedo de uma colega de sala. “Também teve uma vez que estávamos entre amigas fazendo maquiagem e uma menina disse que na minha pele não pegava cor, por ser preta”.

Maria Eduarda, 19 anos.
Fonte: arquivos pessoais

Ao perguntar para Maria o que a cor de pele significa para ela, a mesma diz: “ Para mim tem um significado muito importante de ancestraliedade, força e luta pela liberdade”.

Bruna Lopes Araújo, auxiliar de escritório de 22 anos, também falou sobre as situações de racismo que já passou. “Foram várias situações, mas infelizmente, as que mais me marcaram foram as vividas na escola na minha infância. Em meio à “zoações” e até estar na lista das mais feias da sala, a situação que mais me marcou foi quando uma colega disse para outra que eu não poderia brincar com elas no intervalo por que eu era preta. A professora ouviu e a deixou de castigo. Essa cena é muito nítida na minha memória até hoje.”

Bruna Lopes, 22 anos.
Fonte: arquivos pessoais

Como é correto dizer: pessoa negra ou pessoa preta?

Para o IBGE, negros correspondem à soma de pretos e pardos. Nesse caso, pretos são considerados os que possuem a pele mais retinta (mais escura) e os pardos os que possuem a pele mais clara (menos retinta). A alguns meses atrás em um programa de reality show produzido pela Globo, o Big Brother, o participante Babu Santana falouu da origem da palavra “negro”, que vem de nigro – do grego, inimigo, logo então é por isso que o certo seria falar “preto”. Mas há uma discordância sobre a origem e alguns historiadores acreditam que o termo tenha vindo do latim nigrum ou ainda necro, que se refere à morte (tese menos defendida). O discurso de Babu caminha lado a lado ao do músico ganês Nabby Clifford, que tem vídeo viral em que aborda o tema. Em termos gerais, Clifford diz que “negro” é uma palavra negativa e que o correto é usar “preto”.

Como combater a discriminação?

Ao fazer essa pergunta para a entrevistadas, o que mais chamou atenção foi a resposta da Thais Vieira. “Primeiramente, não negando sua existência. Reconhecer que ela existe e que é um problema de todos seria o primeiro passo. O próximo seria combater a discriminação com ações, não apenas na internet compartilhando posts dizendo que “somos todos iguais” no dia 20 de novembro por que, infelizmente, não somos. Todas as vidas importam, mas são as pretas que são caçadas todos os dias. É um processo diário, mas a desconstrução deve partir de cada um seja pesquisando, ouvindo sobre o assunto, seja corrigindo o amigo que usa um termo racista”.

Como se sabe e é assunto nas redes sociais, não basta ser apenas contra o racismo, você precisa ser antirracista. As mulheres negras querem se sentir representadas perante a sociedade, não só em uma novela ou propaganda de televisão ou outdoor. Elas buscam ser representadas em todas as áreas de trabalho e cada um delas luta por isso a cada dia. O feminismo negro é um exemplo dessa luta e extremamente importante para as mesmas.

O feminismo negro surgiu no Brasil na década de 1970 com o Movimento de Mulheres Negras (MMN), a partir da percepção de que faltava uma abordagem conjunta das pautas de gênero e raça pelos movimentos sociais da época.

“Enquanto mulheres brancas estavam buscando ter os mesmos direitos civis que os homens, mulheres negras estavam lutando para serem reconhecidas como seres humanos. Acredito que por ser uma mulher preta, preciso provar meu valor 10 vezes mais que minhas amigas brancas. Quando elas se irritam, elas têm “personalidade forte”, quando eu me irrito, sou a “barraqueira”. O feminismo negro é de extrema importância visto que ainda estamos em desvantagem, direitos básicos ainda são negados e poder usar um short curto é apenas a ponta do ice berg”, diz Thais Vieira

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